Em Análises e Reflexões, Destaques

“A ontogenia imita a filogenia.” Com esse aforismo os cientistas resumem uma plêiade de observações, mas, concomitantemente, evitam importantes questões que permanecem obscuras. A evolução individual do organismo vivo, inclusive a do Homo sapiens, desde o momento da fecundação até sua idade madura, admite um paralelo com a evolução da espécie desde suas origens primevas até seu presente estado. Só não há uma explicação adequada para o fenômeno. Na mesma categoria estão outras afirmativas frequentes, até mais intrigantes, tais como, por exemplo, “a natureza imita a arte”, que alguns pretendem justificar por uma atração universal pela simetria.
Pois bem, tendo como desculpa esses precedentes consagrados, convido o leitor a considerar mais um aforismo de mesma inspiração: “A cidadania imita a fisiologia”.

Um dos problemas centrais desse capítulo da biologia é o comportamento dos sistemas imunológicos dos organismos superiores, que podem ser entendidos como conjuntos de subsistemas especializados que permanecem dormentes até o momento em que se fazem necessários, ou seja, quando o organismo a que pertencem é ameaçado. É a natureza do agressor que mobiliza os anticorpos adequados. Seria, por outro lado, ineficiente e prejudicial manter em atividade permanente todos os anticorpos que o sistema imunológico de um organismo superior é capaz de produzir.

A cidadania é sustentada por um complexo de valores que também se divide em subconjuntos cujos níveis de atividade variam com as circunstâncias. Quando em um organismo vivo um dos subconjuntos de anticorpos permanece em atividade desnecessariamente, ele pode se converter em doença autoimune, por vezes incurável, mortífera mesmo.

O moralismo intolerante, o puritanismo ortodoxo, o nacionalismo xenófobo e o triunfalismo racista são doenças ideológicas oriundas, pelo menos parcialmente, de valores legítimos, inadequadamente exacerbados. São os mesmos valores que, quando mobilizados em momentos oportunos, propulsam os líderes civis, os santos, os heróis, os reformistas.

Esse mecanismo pelo qual valores morais, culturais, sociais etc. são mobilizados para assegurar a sobrevivência de cidadãos e de suas comunidades, em momentos de crise, é também perceptível nas instituições da sociedade civilizada. E o caso da universidade está em pauta. Durante o recente período de repressão e ditadura despertaram os valores relacionados com a democracia e a liberdade. E a universidade se tornou um baluarte da militância política. Os valores tradicionais acadêmicos, tais como aqueles relativos à produção intelectual, à excelência, à originalidade, passaram a um segundo plano. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), espécie de representante da universidade nacional, passou a ser a mais importante instituição da sociedade civil brasileira, dedicada à luta libertária, mais que qualquer partido político.

Àquela época nenhum segmento da opinião criticou essa postura assumida pela universidade, talvez porque pressentisse instintivamente que naquele momento histórico a crítica social, a militância política mesmo, eram missões legítimas da universidade.
Encerrado o regime militar, os anticorpos desenvolvidos para combater a ditadura se tornaram prejudiciais à vida acadêmica, e um período de retomada de equilíbrio entre os valores dos vários subsistemas da universidade foi necessário.

A natureza adota outra estratégia para organismos primitivos. Seus sistemas imunológicos são praticamente imutáveis, mas são mais econômicos. Esses organismos, entretanto, perecem com qualquer mudança do meio ambiente ou de agressor. O homem cria instituições assim pouco flexíveis para ocasiões específicas. Parece que a universidade imaginada por alguns neoliberais seria um organismo dessa categoria, dedicado a responder unicamente a demandas específicas de mercado. Governos preferem sempre lidar com organismos e com cidadãos que disponham de sistemas de valores os mais estreitos possíveis, portanto previsíveis.

Quanto mais flexível é um sistema imunológico, mais resistente e mais adaptável a mudanças é o organismo que o detém. É certamente devido à complexidade de seu sistema de valores que sobreviveu a universidade ocidental por tantas transformações sociais, desde a Idade Média até a era pós-industrial. É essa universidade pluralista que a comunidade acadêmica do Estado de São Paulo procura preservar. O recente apoio educacional a jovens participantes do movimento dos sem-terra também se encaixa nesse modelo de universidade pluralista. O essencial para que a universidade não desapareça é que seja capaz de alimentar uma multiplicidade de subsistemas de valores e portanto uma atividade intelectual fundamentalmente livre e diversificada. E é justamente essa aptidão que rege sua autonomia, intelectual e administrativa, e não a prestação de serviços coagida por circunstâncias não acadêmicas, meramente financeiras. Esperemos apenas que consigamos desenvolver a tempo uma vacina, transgênica que seja, contra a virulenta epidemia de neoliberalismo que infestou a socialdemocracia brasileira neste fim de século.

 

Créditos de imagem: site.adital.com.br


Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de 28/06/1999.

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