Em Conjuntura Internacional, Destaques

Donald Trump e Xi Jinping, os dois principais líderes mundiais, à frente de países responsáveis em conjunto por 40% do PIB global, encontraram-se a 6 de abril de 2017, com suas respectivas mulheres, na mansão do Presidente americano no balneário de Mar-a-Lago (Flórida). Ainda em Washington, de partida para o encontro, Trump disse “não saber realmente” o que poderia sair da conversa com o Presidente chinês. Já no avião, comentou: “A China não tem sido justa com os EUA no plano comercial. E há a Coréia do Norte, que se tem imposto como problema muito grande. Se a China não nos ajudar nessa questão, os EUA vão resolvê-la sozinhos.” Seis dias mais tarde, na sua conta no Twitter, Trump voltou ao assunto, dizendo ter explicado a Xi “que um acordo comercial com os EUA seria muito melhor para os chineses, se eles resolvessem o problema norte-coreano.” Entrementes, o Pentágono havia enviado para perto de águas coreanas o porta-aviões Carl Vinson, acompanhado por outras naves, inclusive dois contratorpedeiros equipados com mísseis teleguiados. Os norte-coreanos não se deixaram impressionar, e o jornal oficial do regime ameaçou: “Nosso forte Exército revolucionário está observando atentamente cada movimento dos elementos inimigos, com nossa visão nuclear focada nas bases invasoras americanas, não só na Coréia do Sul e no teatro de operação do Pacífico, mas também no território dos EUA.” Eles continuaram as experiências com mísseis, inclusive não atendendo a um pedido de Xi Jinping pela suspensão das mesmas. O mais recente lançamento ocorreu a 28 de abril, e no dia seguinte Washington despachou um poderoso Minuteman III, da Base Aérea de Vandenberg na Califórnia. Seu trajeto foi interrompido aos 6.500 quilômetros, na altura das Ilhas Marshall, mas o alcance real é de 10.000 quilômetros. Um comunicado do Pentágono deixou claro que se tratara de aviso à Coréia do Norte.

Apesar desse fundo de cena de ameaças, o encontro de Mar-a-Lago avançou sem incidentes, num clima de simpatia mútua. A diferença era grande entre os interlocutores: um populista xenófobo frente a um autocrata centralizador. Mas como acentuou Martin Wolf, no Financial Times (cf. VALOR – 23.03.17), “condenados a colaborar”. Em janeiro, no Fórum Mundial de Davos, Xi Jinping dera sólido apoio à globalização e à abertura econômica, enquanto Donald Trump insistira, apenas três dias depois, que “o protecionismo garantirá grande prosperidade e força”. Eles chegaram a Mar-a-Lago, no entanto, com suas ênfases alteradas. Trump principalmente, graças à influência do novo Secretário da Defesa, o general aposentado James Mattis. Trump cedera na política “de uma só China”; delegara seu genro Jared Kushner para dialogar com os líderes chineses; deixara cair as ameaças da campanha eleitoral de impor altas tarifas aduaneira à China e castiga-la por sua política cambial; e numa outra área, deixara de declarar a OTAN obsoleta. Quanto a Xi, ocupado em aumentar seu poder com vistas às mudanças de pessoal a ocorrerem em novembro, no XIX Congresso Nacional do PCC, vem também promovendo o conceito de “um novo modelo de relações entre as grandes potências”, cunhado por ele há algum tempo. O objetivo sendo afirmar a liderança chinesa no Pacífico Norte.

The Economist (01.04.17) trouxe um artigo com a análise prospectiva do encontro de Mar-a-Largo. O semanário recorda a asserção de Xi Jinping, no Fórum de Davos, sobre a disposição da China de “guiar a globalização econômica” A imprensa oficial em Pequim tem bordado com entusiasmo em torno dessa pretensão, associando-a ao conceito de “um novo modelo de relações entre as grandes potências”, também divulgado por Xi. Tem-se então falado de “duas normas”, conducentes à ideia de uma “solução chinesa” para os problemas do mundo. A moda, agora, é “solução”, não mais “modelo”. Ninguém ainda definiu como será essa “solução”, mas ela parece aplicável a qualquer problema. Um deles a mudança climática. A China, que até a altura de 2008 era um obstáculo a avanços no terreno do clima, tornou-se em 2016 um dos mais ativos promotores do Acordo de Paris. Em aliança com Barack Obama, mas disposta até a enfrentar sozinha as tentativas de Donald Trump de desmantelar a política climática do seu antecessor.

Esta coluna aproximava-se do fim, quando me vi compelido a abrir um novo parágrafo. Tanto o Estado quanto a Folha de S. Paulo (02.04.17) dão relevo à impactante declaração de Donald Trump, em meio a uma incomum concentração de força conduzida pelo Pentágono nas cercanias da Coréia do Norte, de que “nas condições corretas” ele se sentiria honrado em encontrar o Presidente Kim Jung-um para debater as relações entre seus dois países. É bem sabido que toda a escalada nuclear da Coréia do Norte visa a trazer os EUA a negociarem a superação do estado dessas relações, congeladas desde 1953 no armistício que pôs fim à Guerra da Coréia. Sem essas negociações, Pionguiangue sente-se ameaçada de destruição pelo poderio americano. Trump é o primeiro Presidente americano a admitir a possibilidade das negociações diretas. Dois dias antes, Trump havia elogiado a capacidade de liderança e sobrevivência de Kim Jung-um, até a entrevista à Bloomberg: “Se for apropriado encontrar com ele, eu me sentiria honrado em fazer isso. Se for sob as condições corretas. Mas eu o faria.”

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Amaury Porto de Oliveira. Embaixador.

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