Em Conjuntura Internacional, Destaques

Por Gustavo Chacra

Como a Síria recebia seus refugiados até 2011?
Poucas pessoas sabem, mas a Síria, até quatro anos atrás, era uma das nações que mais recebia refugiados no mundo.
Quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003, centenas de milhares de iraquianos, fossem eles cristãos, sunitas ou xiitas, precisaram fugir. Praticamente o mundo todo fechou a porta para eles. Mas foi na Síria que eles conseguiram refúgio, fugindo da guerra que destruiu o Iraque.
Ao todo, em 2010, viviam 1 milhão de refugiados iraquianos na Síria. Seus filhos possuíam direito a educação gratuita. Até 2006, a saúde também era de graça, mas depois o governo sírio impôs algumas restrições – na prática, iraquianos ainda eram atendidos gratuitamente.
Quando Israel bombardeou o Líbano em resposta a ataques do Hezbollah em 2006, centenas de milhares de libaneses buscaram refúgio momentâneo na Síria. Em uma atitude fantástica, os sírios abriram as portas de suas próprias casas para os libaneses terem refúgio.
E os refugiados palestinos, que enfrentam dificuldades em tantos países árabes, antes do início da guerra civil, em 2011, podiam viver na Síria sem grandes problemas e sempre com suporte governo e de entidades internacionais – obviamente, o cenário é completamente distinto hoje.
Hoje, são os sírios que precisam de ajuda.

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Por que a Arábia Saudita não recebe refugiados sírios?
É sim uma vergonha a Arábia Saudita e outras nações do Golfo Pérsico não receberem nenhum refugiado sírio. Zero. Inacreditável. São alguns dos países mais ricos do mundo e mesmo assim mantêm suas portas fechadas para pessoas aterrorizadas por uma das guerras mais sangrentas do século 21.
No caso dos sauditas, ainda é pior. O regime de Riad acabou de anunciar a compra de US$ 1 bilhão de dólares em armamentos dos EUA. Estas armas servirão para alimentar a guerra dos sauditas no Yemen, onde centenas de civis têm sido mortos nos bombardeios da Arábia Saudita – bombardeios que servem para fortalecer a Al Qaeda na Península Arábica.
A Arábia Saudita, que possui um regime de apartheid contra as mulheres e os xiitas, também patrocina ao redor do mundo a ideologia wahabbita – a mesma do ISIS (Grupo Estado Islâmico ou Daesh), da Al Qaeda, do Taleban, do Boko Haram e do Al Shebab. Emirados Árabes, Omã, Qatar e Kuwait são outras nações ricas do Golfo Pérsico que não recebem refugiados.
Mas e no resto do Oriente Médio?
. O Líbano, segundo a ONU, tem 1,1 milhão de refugiados sírios – ou uma em cada 4 pessoas no país (sem falar nos 500 mil refugiados palestinos)
. A Turquia, aproximadamente 2 milhões
. A Jordânia, 650 mil
. O Egito, pouco mais de 100 mil.
. Yemen e Iraque estão em guerra. Ainda assim, o Iraque recebe 250 mil refugiados (mais do que qualquer país da Europa)
Todos estes países, portanto, recebem mais refugiados do que qualquer nação europeia, incluindo a Alemanha. O Líbano, com 4 milhões de habitantes e uma economia pequena, recebeu mil vezes mais refugiados do que a Inglaterra.
Certo, mas e o Irã e Israel, por que não recebem refugiados sírios?
. O Irã é o país que mais recebe refugiados das guerras do Iraque e do Afeganistão. São centenas de milhares. Logisticamente, os sírios têm dificuldade de cruzar o Iraque até chegar ao Irã
. Israel, por sua vez, enfrenta problemas de segurança interna e teme que terroristas se infiltrem entre os refugiados – um argumento correto, mas que poderia ser usado por qualquer país do mundo, incluindo o Líbano, Jordânia e Turquia, que são alvos de terrorismo. Por outro lado, Israel recebeu ao longo de sua história milhões de refugiados perseguidos na Europa, na ex-União Soviética e no mundo árabe.
Enfim, mais uma vez, as nações ricas do Golfo Pérsico, como a Arábia Saudita, são as que possuem maior capacidade de receber refugiados sírios.

Guga Chacra. Jornalista.
O Estado de São Paulo: 04-06/09/2015.


Imagem: Associated Press

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