Em Destaques, Música

Por Rogério Cerqueira Leite

A Telefunken lançou em oito discos a música de câmera de Bach. Essa coleção contém as Sonatas para cravo e violino, cravo e flauta e cravo e gamba, três Trios, A Oferenda Musical e A Arte da Fuga. A coleção não é completa, ou melhor, rigorosamente não contém a obra integral de Bach que poderia ser classificada como música de câmera. Faltam algumas peças pequenas, mas que são, todavia, secundárias. Por outro lado, muitos não incluiriam na música de câmera A Arte da Fuga e A Oferenda Musical, que alguns musicólogos preferem considerar como obras teóricas. É um ponto que jamais haverá concordância. Em primeiro lugar porque Bach compunha possivelmente sem levar em consideração a natureza precisa do instrumento que iria preencher cada parte. Por outro lado, não há dúvida de que muito frequentemente a escrita preenche todas as potencialidades de um instrumento musical específico, como é o caso das Partitas e Sonatas para violino solo, que analisamos em nosso último artigo. *

Comecemos pelas Sonatas para cravo e violino cuja importância é comparável àquelas das Sonatas para violino solo ou para violoncelo solo. Em realidade as sonatas poderiam ser classificadas como trios, pois o cravo se encarrega de uma voz além do baixo-contínuo. Nessas sonatas, entretanto, o cravo tem uma função de obbligato tão relevante quanto a do violino. Alguns intérpretes reforçam o baixo com uma viola da gamba, o que está em completo acordo com as tradições da época de Bach. Essas Sonatas para cravo e violino de Bach representam enorme saldo em relação a seus predecessores, pois, se não contêm o sentido dramático das grandes Sonatas para piano de Beethoven, rivalizam em conteúdo expressivo com qualquer outro item da literatura beethoveniana. Historicamente foram Landowska e Menuhin que despertaram a atenção do grande público para essas peças. E foi uma grande descoberta, pois até então a parte do cravo era tradicionalmente executada pelo piano, cujo timbre opaco não mescla tão bem com o violino como o cravo. De fato, mesmo os compositores modernos sentem grande dificuldade em combinar violino e piano. É, portanto, desejável que essas peças sejam tocadas em sua instrumentação original. Uma versão academicamente perfeita, mas desnecessariamente árida é a de Alice Harnoncourt ao violino e Tachezi ao cravo, tendo no baixo-contínuo Nicolaus Harnoncourt tocando a viola da gamba. A série vale pela excelente mescla de timbre entre instrumentos da época.

Esforço elogiável foi feito por David Oistrakh, o grande violinista russo, acompanhado por Hans Pischner. Devo, entretanto, esclarecer que seu estilo de grande concerto subtrai muito do que existe de intimidade e sensualidade dessas peças, apesar de momentos de grande brilho. Em uma linha intimista Schneeberger e Müller nos dão uma versão bastante bem-sucedida, embora despretensiosa. Nessa tradição acadêmica, as versões preferíveis seriam de Kuijken e Leonhardt e de Melkus e Dreyfus. Em ambos os casos a percepção de uma adequada relação entre forma e expressão dentro dos cânones da tradição da primeira metade do século XVIII se mostra inteiramente apropriada. No extremo oposto está a versão de grande concerto de Leonid Kogan e Karl Richter, como também, inesperadamente, a de Szeryng e Walcha. Em ambos os casos fica perdida a expressividade inerente dessas peças e nada é adicionado pela visão moderna do grande virtuoso de concerto. Creio, portanto, que, a despeito da grande expressividade dessas obras, é necessário reter o seu espírito camerístico.

As Sonatas para cravo e gamba têm sido gravadas com frequência em versão para violoncelo e, para aqueles que se acomodam bem a essas adaptações, a edição Fournier-Růžičková é bastante interessante. De minha parte ainda prefiro a excelente gravação com Koch na viola da gamba e Leonhardt no cravo, que permanece nesses últimos dez anos imbatível. Tortelier no violoncelo com Veyron-Lacroix são aceitáveis. Na coletânea da Telefunken, Harnoncourt se ocupa da viola da gamba tendo como parceiro Herbert Tachezi. Novamente esse grupo se perde pelo excesso de rigor acadêmico, que não substitui imaginação e sensibilidade.

Bach também compôs Sonatas para cravo e flauta em que o primeiro instrumento tem sob seu encargo uma voz além do baixo-contínuo, podendo, portanto, serem consideradas composições na forma trio-sonata. Além dessas escreveu três Sonatas para flauta e baixo-contínuo e uma Partita para flauta solo. Para essas obras em sua totalidade a minha preferência fica com Frans Brüggen e Samuel Baron. A vitalidade exasperante de Rampal e Veyron-Lacroix é cansativa e serve mal ao caráter intimista das sonatas. Nicolet e Richter são satisfatórios. E Larrieu em conjunto com Puyana nos dá uma versão bastante agradável.

Dentre as Trio-Sonatas atribuídas a Bach, apenas três são possivelmente autênticas. A Trio-Sonata para dois violinos e baixo-contínuo é interpretada razoavelmente pelo Concentus Musicus de Viena. Também a Trio-Sonata para flauta, violino e baixo-contínuo e a Trio-Sonata para duas flautas e baixo-contínuo são gravadas com grande sensibilidade por Frans Brüggen, Tachezi e o casal Harnoncourt, membros do Concentus Musicus de Viena.

*Ver artigo: “O violino e o violoncelo desacompanhados em Bach” [http://bit.ly/2gMPwl7]

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 05/02/1984.

Johann Sebastian Bach

Kantata BWV 147

Nikolaus Harnoncourt

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