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3 – O Renascimento

Vamos chamar de Renascimento a época que começou em meados do século 15 e termina em inícios do 17. Se olharmos esse período como se fora um bloco monolítico, a característica principal que o distinguiria de seu predecessor seria a restauração da monodia, agora acompanhada de uma ou mais vozes subsidiárias, uma consequência natural das necessidades dramáticas das formas precursoras da ópera. Todavia essa é uma característica que só se acentua tardiamente no Renascimento. A polifonia do Renascimento também exibe algumas diferenças perceptíveis. Como consequência de algumas inovações harmônicas (do crescente uso da terça em lugar de consonâncias perfeitas), foi possível dispensar a separação aguda entre as vozes e permitir movimentos mais livres entre elas, com o surgimento de novos dispositivos, inclusive da imitação, o germe da fuga, que veio a frutificar no barroco.

O “epicentro” da invenção musical que residia na Itália durante o primeiro milênio de nossa era se desloca para Paris no começo do segundo, e antes que a metade deste nosso milênio se escoe se instala, por um período breve, porém brilhante, nas terras franco-flamengas do ducado de Borgonha – que, não podemos esquecer, ao fim do Renascimento se estendia desde a região hoje denominada Borgonha até a totalidade dos Países Baixos. Não devemos nos espantar tanto com essa inesperada geografia da genialidade. Basta lembrar os contemporâneos Bosch, Brueghel, Van Eyck etc.
Todavia a Velha e Eterna Itália já despertava.

Claudio Monteverdi

Claudio Monteverdi

E, antes mesmo que o Renascimento se encerrasse, explodia a imaginação italiana. Lassus, o último dos grandes flamengos, mal chegara a Munique e já brilhavam por toda a Itália os gênios dos Gabrielis, de Palestrina e do Jovem Monteverdi. Sim, a monodia havia sido reinstalada, mas em compensação a polifonia se enriquecia graças a técnicas avançadas de contraponto de ritmos e de melodia. Se há talvez uma característica dominante do Renascimento, esta não é de ordem técnica, mas, ouso dizer, ideológica. Pela primeira vez o músico percebe que não está a serviço de regras, quaisquer que sejam, mas que pode mudá-las, que elas estão a seu serviço.

4 – O Estilo barroco

Toda e qualquer delimitação de épocas para os estilos musicais será necessariamente arbitrária. Todavia existe na transição Renascimento-Barroco um marco mais bem definido do que qualquer outro. É a adoção consciente e intencional de uma “Segunda Prática”, por Monteverdi. É claro que não é uma ruptura técnica extrema, mas é declarada e perceptível. Entretanto essa transição difere das demais pelo fato de formalmente ter conservado o estilo anterior como alternativa competente. Pela primeira vez, como diz Bukofzer, o compositor é obrigado a ser bilíngue. Em realidade, a proclamada unidade de estilo do Renascimento e mesmo do Gótico sempre foi atropelada por manifestações variadas da monodia. Mas nesses casos essas formas sempre foram consideradas como “clandestinas”. Se olharmos, entretanto, o período barroco como um todo, perceberemos como característica mais saliente, ou seja, aquela que o distingue mais claramente do estilo renascentista, o uso quase permanente de um dispositivo denominado “baixo contínuo”.  Vejamos como isso acontece. A transição Renascimento-Barroco decorre de um misterioso imperativo, talvez de origem biológica mesmo, que propulsiona a mente criativa na busca de novos acordes, ou melhor, de novas formas de lidar com dissonâncias, o que implica mudanças das regras da harmonia e, consequentemente, invenções em outros elementos, inclusive no contraponto. Por outro lado, o progressivo deslocamento da música de concerto, da igreja para o salão, implicava a absorção de elementos narrativos de natureza dramática, embora simbólicos, o que encontrava dificuldades com a intrincada polifonia característica do Renascimento. Essa mudança de enfoque resultou em maior concentração na voz baixa dos elementos rítmicos e sustentação da tonalidade, liberando as vozes mais altas para o contraponto e assim melhor lidar com dissonâncias. Levada ao extremo, essa fórmula se torna o baixo contínuo. É também um expediente conveniente para essa nova forma de música secular que se afirma no barroco, a ópera, pois é adequada para fórmulas dramáticas tais como árias, recitativos acompanhados e lamentos.

Claudio Monteverdi
“Zefiro torna”
Nuria Rial (soprano)
Philippe Jaroussky (countertenor)
L’Arpeggiata (direction: Christina Pluhar)

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https://www.youtube.com/watch?v=e6tJWY2Vaz4

 

Créditos de imagem:  musicanidi.blogspot.comhandverksskolen.piczo.com

 

*Publicado originalmente no jornal FSP de 09 de Maio de 1999

 

 

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