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Estamos em Junho e a Pátria em chuteiras. O calendário esportivo sobredetermina a conjuntura e a ‘ofegante epidemia’ do futebol impõe-se sobre todas as coisas. Mas o cronograma do processo eleitoral exige a aceleração das negociações entre as legendas partidárias, que neste mês precisam oficializar as alianças articuladas – até aqui – nos bastidores da política.

As convenções partidárias para definir os nomes dos candidatos que vão disputar cargos eletivos em 2014 deverão ser realizadas entre os dias 10 e 30 de junho, em plena Copa do Mundo.  O registro dos candidatos deverá ser feito até 5 de julho. A propaganda eleitoral, nas ruas e na internet, deixará de ser ilegal a partir do dia 6 de julho. A campanha no rádio e na televisão começará no dia 19 de agosto. E o primeiro turno será no dia 5 de outubro.

A convenção nacional do PMDB é o principal evento político do mês. Nela, “quem fizer 362 votos ganha”, estimava o deputado Raul Henry (PMDB-PE). Os analistas acreditam que há maioria suficiente para aprovar a renovação do pacto PT/PMDB, fazendo com que Dilma conquiste a maior parcela do horário eleitoral. Mas todos também concordam que – vença quem vencer a convenção peemedebista – o partido sairá, de novo, seriamente dividido entre governistas e opositores. O Vice-Presidente da República, Michel Temer, alardeia que mais de 2/3 dos convencionais da legenda deverão apoiar a coligação atual, o que deixaria cerca de 1/3 do partido nos braços da oposição.

Dilma Rousseff e Lula iniciaram o mês definindo a agenda de trabalho da campanha reeleitoral – “durante o mês de junho, pretendem cumprir agenda juntos uma vez por semana, indo a convenções de partidos aliados e a encontros estaduais do PT, para manter em evidência a candidatura à reeleição. Os dois também estarão juntos nos jogos de abertura e de encerramento da Copa. A estratégia foi definida em reunião da pré-campanha de Dilma”, que aconteceu no primeiro dia útil do mês. (O Globo, 4/6/14).

Nesta mesma reunião avaliou-se que “a situação de Dilma nas pesquisas se estabilizou com a ofensiva feita em maio, que incluiu a propaganda do PT na televisão e o pronunciamento do Dia do Trabalhador, quando ela anunciou reajuste de 10% do Bolsa Família”. (idem). Presente nessa reunião, João Santana, o marqueteiro da reeleição, “traçou um cenário sombrio” ao fazer a análise de pesquisas de opinião eleitoral exclusivas do PT: Dilma enfrenta desgaste e “caiu a confiança do eleitor na capacidade do governo para promover mudanças. Até quem melhorou de vida nos últimos anos desconfia que sua renda pode parar de aumentar. A análise preocupou os petistas e deve exigir uma guinada na estratégia eleitoral. […A mesma] sondagem indicou que Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) [não empolgam como possibilidade de mudança e] não despontam como herdeiros da confiança perdida do eleitor. Ao menos por enquanto”. (Folha de S. Paulo, 4/6/14).

A mais recente pesquisa do Instituto Datafolha, publicada em 6 de junho, confirma, em linhas gerais, estas tendências. E também constata que o eleitorado está dividido em três blocos de tamanho semelhante: Dilma fica com 34% das intenções de voto; a oposição, tudo somado, com 35%; e, é recorde a taxa de eleitores sem preferência eleitoral: 30%. A reeleição de Dilma atravessa momento difícil, pois sua candidatura é rejeitada por 35% do eleitorado e seu governo é aprovado por apenas 33% dos entrevistados pelo Instituto; além disso, 3/4 dos eleitores querem mudanças e somente 16% acreditam que a Presidente poderia ser protagonista desta demanda popular. E por que tantos entrevistados querem mudanças? É por que estão muito pessimistas e creem que a situação da economia brasileira vai piorar, a inflação e o desemprego vão crescer e o poder de compra dos salários vai cair. (ver Notas números [1] e [2], ao final deste texto).

A bandeira de mudanças desfraldada em junho de 2013 continua em disputa, pois enquanto a sociedade indica demandas inclusivas (melhoria dos serviços públicos) parcela da grande imprensa amplifica o pleito, mas encaminha soluções ortodoxas, restritivas, utilizando o eufemismo de solução de Mercado.

São 200 ‘milhões em ação’: a Copa Mundial de Futebol empolga. Ainda assim, a disputa política continuará intensa, mesmo posta em segundo plano pelo torneio internacional. E a economia parece seguir pouco estimulante; os dados divulgados sobre a produção confirmam: nesta semana que passou, foram os números ruins de abril referentes à indústria que mantiveram o desalento. O clima pessimista vai contaminando as expectativas para 2015 – o relatório semanal Focus/Bacen projetou evolução de 1,85% para o PIB do ano que vem (e de 6%, para o IPCA). Até mesmo economistas com sólidas ligações governistas, como Nelson Barbosa/FGV-Rio, sinalizam para cenários assemelhados: falando ao Estado de S. Paulo (29/5/14), Barbosa apostou que o Brasil novamente crescerá pouco em 2015 (PIB: 1,0%) e que a inflação atingirá um ponto elevado (IPCA: 7,5%).

No mercado financeiro, a combinação do clima esfuziante da Copa com as turbulências da política, e ainda com a onda de pessimismo econômico, não alterou a ordem-do-dia, que é manter-se em estado de permanente sobreaviso.

Um antigo slogan do gigante do sistema bancário, o Citibank, apregoava: “Citi never sleep“. O lema é extensivo ao conjunto do capital: “Na esteira da ansiedade que o resultado da eleição presidencial tem causado no mercado financeiro brasileiro, algo que não se via desde 2002, um produto disponível para poucos tem capturado a atenção de bancos e corretoras. Ao menos um instituto de pesquisa passou a vender a esses clientes, dispostos a desembolsar dezenas de milhares de reais, algo que vem sendo chamado de pesquisa ‘clone’ ou pesquisa ‘gêmea’. Em poucas palavras, são sondagens que prometem replicar e, mais importante, antecipar, o resultado das pesquisas eleitorais realizadas pelos grandes nomes do segmento, como Ibope e Datafolha. […] Segundo um especialista, a ideia é mimetizar as sondagens registradas no TSE com a maior coincidência de detalhes possível. Isso significa colocar pesquisadores em campo em datas semelhantes para fazer a coleta de dados e ouvir a mesma quantidade de eleitores pretendida pelo instituto que registrou a pesquisa, além de empregar a mesma metodologia”. (Valor, 5/6/14).

“Nesse cenário de volatilidade de preços, afinar as previsões passou a ser sinônimo de lucro nos mercados”, conclui o jornal. Sempre alerta, o mercado financeiro nunca dorme.

NOTAS:

[1] ‘Dilma continua em queda e rivais não sobem, diz Datafolha’ – 6/6/2014 – Poder – Folha de S.Paulo. Link: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1465879-dilma-continua-em-queda-e-rivais-nao-sobem-diz-datafolha.shtml

[2] ‘Pessimismo com economia bate recorde, aponta Datafolha’ – 6/6/2014 – Poder – Folha de S.Paulo. Link: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1465882-pessimismo-com-economia-bate-recorde.shtml

Créditos de imagem: g1.globo.com

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