Em Destaques, Sem papas na língua

Salários de reitores, diretores, etc. das Universidades Paulistas foram congelados até que um dia alcancem o valor da remuneração do Governador de Estado. A solução seria eleger um Governador que mereça um melhor salário, dizem ironicamente os universitários.

Os Institutos de Pesquisas do Estado de São Paulo obedecem uma lei obscurantista, que só permite contratações por concurso e que concursos para ingresso só podem ser abertos para as posições iniciais e finais da carreira. Não consigo imaginar qual o bestialógico invocado para justificar esta imbecilidade nem o que a mantem até hoje. O governo gasta uma respeitável soma com ensino e bolsa para produzir um pesquisador com doutoramento, manda-o para os EUA para um pós-doutorado. Quando volta, após seis ou sete anos de estudos, para ser aproveitado é obrigado a ingressar após concurso no início da carreira destinada e com remuneração de recém formado podendo ascender aos níveis correspondentes à sua formação somente após 5 ou 6 anos. E além do mais com salários aviltantes. Ora só, aceitam estas condições humilhantes e mendicantes os incompetentes absolutos e os santos e estes últimos estão, a cada dia, mais raros. Estas condições eliminam a competência e condenam os Institutos a uma crescente mediocridade. As Universidades Paulistas puderam amenizar os efeitos perniciosos dessa legislação usando sua precária autonomia para admitir ingressos em níveis intermediários da carreira. E dois dos 19 Institutos de Pesquisas do Estado de São Paulo puderam sobreviver dignamente porque produzindo bens essenciais tais como soros ou vacinas (Instituto Butantã) ou tecnologias de uso imediato e valendo-se de Fundações próprias puderam contornar as famigeradas legislações.

O tradicional Instituto de Pesquisas Tecnológico-IPT teve que ser transformado em empresa e hoje faz pouca pesquisa, convertendo-se em uma empresa prestadora de serviços, por vezes, invadindo espaços próprios do setor privado concorrendo deslealmente devido a aportes financeiros do Estado e tendo dele preferência devido à dispensa de licitação. Os demais Institutos ou estão moribundos ou em coma, devido a um malfazejo círculo vicioso: o Estado não apoia financeiramente de maneira satisfatória e impõe salários desprezíveis o que expulsa o talento e a competência, resultando em degradação progressiva da competência. Como consequência o governo se vê dispensado de dar apoio. E isto vem acontecendo há 30 ou 40 anos. É inconcebível que este, o mais desenvolvido dos Estados da União passe a dispensar a pesquisa. Que não tenha a percepção de que com isso perde a sua Indústria a competitividade e que não faça qualquer esforço para reparar essa trajetória. Não pode ser só preguiça. Não pode ser só ignorância. Há, por certo, uma militância pela mediocridade.

Créditos de imagem: josecruz.blogosfera.uol.com.br

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)