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É bem verdade que alguns comentaristas associam El Greco a Tomás Luis de Victoria. Mas esse compositor é antes um produto da tradição italiana, tendo sido discípulo de Palestrina e vivido vinte e cinco anos, justamente aqueles cruciais para a sua formação musical, na Itália. Por outro lado, a Espanha Medieval, melhor que a Itália, soube absorver e difundir a arte dos trovadores franceses. E Alfonso X, o Sábio, foi um dos maiores artistas de sua época. Assim, a Espanha, tão generosa na pintura e nas letras, foi bastante avara quanto à música. Creio mesmo que, além de Alfonso X, Victoria e talvez De Falla, não há grandes figuras musicais espanholas a serem mencionadas. Quem seria o Goya da música espanhola, se Beethoven era alemão? E qual o similar de Velásquez se Bach era também alemão? E sendo Stravinsky russo, não há uma contrapartida musical na Espanha para Picasso. E Cervantes, e Lope de Veja e Calderón? Aonde estão seus equivalentes na música? E Unamuno, e García Lorca?

Essas comparações servem pelo menos para mostrar que, por motivos que não chego a suspeitar, teve a música na Espanha apenas alguns florescimentos intermitentes e modestos, quando essa manifestação artística é comparada com as demais. De fato, o mesmo vale para toda a Península Ibérica, pois a História da Música em Portugal ainda é mais triste.

Assim, na Espanha, após o desabrochar da canção Medieval no século XII, em torno da Corte de Alfonso X, somente no século XVI desperta a música, com Victoria e seus contemporâneos, os cegos Cabezón e Salinas, igualmente italianizados, para voltar a ressurgir apenas no apagar das luzes do século XIX, com De Falla, Albéniz, Granados, Turina, sendo que esses três últimos, de quem nos ocuparemos hoje, são de talento formal bastante limitado, ainda que capazes de um ou outro episódio inspirado.

Embora apenas quinze anos mais velho que De Falla, Albéniz tornou-se uma lenda viva mesmo antes do nascimento de seu conterrâneo. Menino prodígio e excepcional virtuoso, desperdiçou muito de sua juventude em programas exibicionistas e vida social. Apenas após prolongado convívio, a maior parte do tempo em bares de Barcelona, com o patriarca da música nacionalista espanhola, o catalão Pedrell, é que Albéniz veio a encontrar sua melhor expressão artística. Justamente nesse terreno simbiótico, estabelecido entre a inspiração popular espanhola e as ousadas concepções harmônicas do Impressionismo francês, que até então fora ocupado quase que exclusivamente por compositores gauleses. Óperas, operetas e fantasias orquestrais de Albéniz podem ser facilmente esquecidas, mas é ele o autor de indiscutível obra-prima, Iberia, uma sequência de maravilhosas cenas panorâmicas, capaz de ombrear seja com os Prelúdios de Debussy, seja com os Estudos de Chopin.

Dentre os intérpretes clássicos de Iberia sobressai-se a visão, talvez excessivamente debussyana, de Gieseking, mas a percepção de Requejo é inquestionavelmente mais adequada. Uma alternativa de primeira qualidade, pelo lirismo contido e espontaneidade exuberante, no extremo conceitual oposto àquele de Gieseking, nos é dado por Alicia de Larrocha. As versões orquestrais de trechos de Iberia e de outras peças para piano de Albéniz não fazem justiça à sua música e devem ser evitadas.

Granados, também catalão, nasceu entre Albéniz e o andaluz De Falla. Como Albéniz, desperdiçou muito de seu talento com composições fáceis e populares, mas acabou por responder às expectativas de seu mestre Pedrell com uma inquestionável obra-prima, Goyescas que, embora não se compare com Iberia, permanece, com justiça, uma preferida do público em geral. Uma obra amável e por vezes brilhante em seu sóbrio Expressionismo.

Alicia de Larrocha é a grande intérprete dessa obra, como também de outras coletâneas preferidas do grande público, tais como Danças Espanholas e Seis Cenas Românticas. As obras completas para piano de Granados foram gravadas com proficiência por Dosse em seis discos. Mas eu só recomendaria essa coleção para aqueles que já possuíssem os dois discos de Alicia com as três séries mencionadas. Victoria de Los Angeles gravou, com sua usual maestria, algumas das Canções de Granados e também de Albéniz.

Também se esperava muito de Joaquín Turina no começo do século. Todavia, esse contemporâneo de De Falla, além de alguma inventividade colorística e de um bom controle da técnica de orquestração, pouco oferece de realmente atraente. Discípulo de d’Indy e intimamente associado a Chausson, sua contribuição à música se encaixa naquela zona híbrida de inspiração popular espanhola e de expressão formal francesa. Sua La Procesión del Rocio é uma peça atraente e existem gravações de seus Canto a Sevilha e Danças Fantásticas. Caballé se distingue no canto e Frühbeck de Burgos tem sido dedicado intérprete de suas obras orquestrais.

Outro compositor espanhol que alcançou alguma popularidade é Rodrigo, com uma série de obras para guitarra e orquestra. É uma música bastante superficial e demagógica, o que explica o fato de que tenha sido esse senhor adotado como músico oficial do regime franquista. Seu Concerto de Aranjuez é sua melhor obra, pois aproveita bem esse aroma bastante característico da música popular espanhola, o chamado canto pequeno, em contraste com o canto jondo. Para o Concerto de Aranjuez, a interpretação clássica é aquela de Bream com Gardiner, mas a versão de Williams com Baremboim não fica muito atrás. No Brasil, foi editado recentemente um conjunto de Quatro Peças com Guitarras que inclui esse e outros concertos, interpretados pelos Romeros e a St. Martin-in-the-Fields, com Marriner dirigindo. Segovia, a quem foi dedicada a obra, oferece uma convincente interpretação da Fantasia para um Cavalheiro. Segovia não é Casals. Esse se recusou a viver na Espanha enquanto perdurasse o regime de Franco.

Manuel de Falla

Siete canciones populares

Victoria de los Angeles & Alicia Larrocha

HUNTER COLLEGE CONCERT

Assembly Hall, del Hunter College (City University of New York)

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Rogério Cerqueira Leite
Membro da Sociedade Americana de Musicologia