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Eu não ficaria surpreso se alguém de bom gosto, ao selecionar as dez sonatas para piano que mais aprecia, se limitasse a Beethoven e Schubert. Brahms certamente soube explorar a forma sonata em suas obras sinfônicas e camerísticas. Então por que desistiu sendo ele próprio pianista, da sonata para piano solo? Talvez porque percebesse que sua dimensão lírico-dramática interior não fosse adequada para a expressão eminentemente dialética exigida pela forma sonata, principalmente quando a ela se adicionava a necessária introspecção.

Nada existe de mais solitário do que um pianista tocando uma das últimas Sonatas de Beethoven ou Schubert, no desértico palco de uma sala de concerto lotada de ouvintes. É uma situação muito diversa daquela que assume quando em companhia de outros músicos, ou de um só, como ocorre em uma sonata para piano e violino. Mas quando está sozinho, o público é a humanidade, é a transcendência. E o compositor se coloca numa posição de intérprete quando compõe uma sonata para piano. Uma peça curta para piano, destituída de dialética, de reflexão, não compromete. Eis por que Brahms, distanciado do telúrico, encontra sua melhor fórmula nas rapsódias, nas baladas, nos romances de curta duração.

Também Schumann não encontra a necessária concentração para enfrentar a solidão de uma sonata para piano. Seus melhores momentos no piano, e mesmo no global de sua música, se concentram nas curtas e livres fantasias de seus ciclos para piano. Aliás, a diferença entre Brahms e Schumann, de um lado, e Beethoven e Schubert, de outro, já é percebida pela importância volumétrica que têm as sonatas no âmbito da obra para piano de cada um.

E Mozart? O problema é que a fórmula proposta por Haydn e seus contemporâneos, inclusive Mozart, é eminentemente humanista; serve para ordenar o universo, para regular a natureza e civilizar o homem. É inconformista em sua essência. E Mozart aceita o mundo como ele veio. Não está interessado em reformas. Suas sonatas envolvem, se tanto, uma luta com a própria expressão estética. E é assim que devemos ouvir suas duas maiores sonatas: a KV 533 em Fá Maior, onde a dialética se metamorfoseia em contraponto, e a KV 457 em Dó Menor, a tonalidade beethoveniana por excelência (precedida, obviamente, da Fantasia KV 475), onde o humanismo se converte em pura generosidade.

E por que não Haydn? É claro que sim, mas é bom lembrar que, enquanto Beethoven fala do homem, Haydn discursa sobre a música. E é por isso que seleciono a Sonata nº 62 Hob. XVI: 52 em Mi Bemol Maior, a música da música, a sonata das sonatas.

E os demais? Listz escreveu uma sonata, e Chopin, três. São peças atraentes mas inteiramente destituídas de metafísica. São baladas ou tocatas magistrais, talvez, mas não são sonatas. Há uma grande diferença entre tocar e soar. E foi exatamente isso que Prokofiev não entendeu e Bartók percebeu melhor que ninguém. E é por isso que os compositores-pianistas franceses sempre se intimidaram frente à possibilidade de compor sonatas para piano, embora aplicassem a fórmula, um pouco a contragosto talvez, à sua música de câmera.

Assim volto a Beethoven e Schubert. Começo com o Hammerklavier e mais a 110, a 101 e a 111 de Beethoven. De Schubert seleciono com alguma hesitação as Três Últimas Sonatas, ditas póstumas. De Mozart as duas mencionadas e de Haydn esse elogio à música que é a nº 62. E é claro que amanhã escolherei dez outras, talvez. E por razões idênticas. Ou possivelmente diversas, não sei.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p.


Créditos de imagem: ifondos.net

 

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