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Ele pode ser melhor pianista que eu, mas eu sou melhor músico que ele. “Assim exprimiu Arthur Rubinstein seu despeito ante a prodigiosa demonstração de virtuosismo do jovem Wladimir Horowitz, em começos da década de 1930. Não foi o então famoso pianista polonês muito generoso com o estreante competidor. Todavia o tempo viria demonstrar que, de fato, havia uma diferença de essência entre as artes respectivas dos dois grandes mestres. Existe, em realidade, três formas de envolvimento pessoal com a música. Um instrumentista pode ser um exímio técnico, um “virtuoso” e um intérprete questionável. Todavia não creio que tenha sido essa a diferença sugerida por Rubinstein ao se comparar com Horowitz. Pois ninguém pode dizer que Horowitz não seja um intérprete de qualidade, seja para Chopin, seja para Scarlatti. E mesmo o pouco de Beethoven que gravou, ou o muito de Schumann, ele o fez com grande distinção. Concluo, portanto, que Rubinstein queria dizer que há uma instância distinta daquela do grande intérprete, a de músico. E essas três categorias valem tanto para instrumentistas como para regentes. Avanço aqui a hipótese de que uma das diferenças essenciais entre essas três categorias de profissionais da música decorre de suas relações com o seu ambiente. O virtuose privilegia sua relação com o seu instrumento em detrimento daquelas que tem com o compositor e com o público. O intérprete tem como prioridade o compositor. Para os que se situam na terceira categoria, a relação prioritária é com o público, com o mundo externo. É, portanto, uma distinção de ordem eminentemente subjetiva.

Podemos, embora com um certo grau de arbitrariedade, reconhecer manifestações objetivas que identificamos, antes pela razão empírica do que pela lógica, como ligadas a uma das duas últimas categorias, posto que a caracterização de profissionais da primeira classe é trivial. É oportuno lembrar que nenhum profissional se confina exclusivamente em uma das três categorias, mas apenas se concentra em uma ou duas delas, embora se estenda sempre, em última análise, pelas três. A primeira manifestação do artista que se enquadra na categoria de “músico” é a sua vocação camerística. Talvez porque, para ser um bom camerista, é preciso abdicar do egocentrismo do solista e conceder espaço para identidades de outros, o que exige um certo grau de solidariedade e de tolerância. Ao intérprete basta sua relação com o compositor, seu Deus. Alguns dispensam até mesmo o público. Glenn Gould é um caso clássico. Com a exceção da “Sonata op. 96 para Violino e Piano” de Beethoven, que gravou com Menuhrin, não encontro referência a nenhum outro seu envolvimento com música de câmera. No pólo oposto se encontra, por exemplo, Rudolf Serkin, que, embora fosse um disputado solista, tem um número de gravações de música de câmera comparável, senão superior, ao número daquelas como solista.

Uma segunda manifestação importante do músico que o distingue do intérprete é a participação em festivais e outros acontecimentos coletivos, tais como escolas de verão (ou inverno) e “master classes”. Novamente usamos o exemplo de Serkin, que animou durante três décadas o Festival de Marlboro, onde se associou a jovens artistas, assiduamente, dando-lhes aulas e com quem inclusive realizou inúmeras gravações, hoje clássicas. Novamente antepomos à de Serkin o exemplo de Gould, que não se notabilizou pela participação em eventos de qualquer natureza que lhe proporcionasse um contato com outros músicos e até mesmo com o público de concertos. Até agora consideramos apenas as manifestações que implicam uma espécie de “socialização” da música. Mas há outras facetas que indicam formas distintas de envolvimento com a música. Embora a “qualidade” da música composta por intérpretes nem sempre seja satisfatória, essa atividade em si revela um certo transbordo para além do instrumento, para além de sua missão profissional. É o caso de grandes nomes, como Arthur Schnabel, Wilhalm Kempf, Leonard Bernstein, por exemplo. Sob esse aspecto, meu contra-exemplo, Glenn Gould, falha, pois esse intérprete também deu alguns passos, trôpegos embora, na composição.

Outra manifestação que permite distinguir o músico do intérprete é o repertório. O primeiro terá por certo mergulhado longamente naqueles capítulos que representam e encerram os grandes momentos da história da música. Se um pianista nunca se aprofundou e se estendeu nas sonatas de Beethoven ou nos concertos de Mozart, na obra para cravo de Bach, por exemplo, ele não pode ter chegado a um momento supremo de revelação.

Dou como exemplo, e ouso dicotomizar, o par da moda no Brasil, Argerich-Freire. Martha é uma incansável exploradora, uma generosa companheira para dezenas de jovens, dentre eles o próprio Freire. Para Marta, Freire é apenas um dentre dúzias de convivas. Para Freire, que debutou apenas um pouco depois de Martha, ela é a única possível parceira. Ela é o centro de festivais, de escolas, de reuniões musicais as mais diversas. O repertório de Freire é modesto, o de Martha é imenso. Ele é um bom pianista, um excelente intérprete. Ela é uma música.

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Martha Argerich

Martha Argerich E agora, de acordo com os critérios esboçados acima mencionados, identificamos dez grandes músicos do século 20: 1. Pablo Casals, o violoncelista, que revelou Bach e ensinou tanta gente; 2. o incansável e sublime pianista Rudolf Serkin; 3. Rubinstein; e, por que não?, apesar de seu narcisismo 4. Gustav Leonhaardt, intérprete maior do barroco e criador de tantas “academias”; 5. Leonard Bernstein, eternamente professor de jovens e adultos; 6. Isaak Stern, o menos dotado dos grandes violinistas judeus, tais como Heifets, Menuhin Millstein, Szigeti, Perlman etc. Mas que imensa generosidade em sua música!; 7. Gidon Kremer, que participa de todos os festivais, que ensina em todos os cantos, que é um incansável camerista, que apadrinha jovens compositores e artistas; 8. Martha Argerich, pelas razões já mencionadas; e, enfim, 9. Nadia Boulanger, professora de quase todo mundo, de composição e de humanidade; 10. e aqui fico na dúvida entre Kempf e Schnabel. Que o leitor aceite o risco da escolha.

Tchaikovsky Piano Concerto No 1     –  Martha Argerich, piano – Charles Dutoit, regente

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Créditos de imagem: jorgefarah.comjblog.com.br


*Publicado no jornal Folha de São Paulo de 14 de novembro de 2004

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