Em Análises e Reflexões, Destaques

Localizar Cuba no mapa mundi é tarefa fatigante e que exige acuidade do observador, tão minúsculo é esse arquipélago banhado pelo mar do Caribe, localizado a curtíssimas milhas dos EUA.

Mas se Cuba é esse nano-território, apenas visível na cartografia mundial com a ajuda de uma potente lupa, não se pode dizer o mesmo desse país quando o assunto é a sua estatura no cenário político internacional. Aqui a pequena ilha se agiganta adquirindo dimensões de difícil mensuração tamanha a magnitude da sua presença no concerto das nações.

Referimo-nos aqui não a Cuba pré-revolucionária, que mais fazia lembrar ante os olhos do mundo um verdadeiro cabaré a céu aberto sob uma governança repressiva, corrupta e submissa, mas sim a Cuba gestada em Moncada e emergida da vitória da Revolução, em 1959 e que está completando neste janeiro de 2014 o seu 55º. Aniversário. Esta é a Cuba que frequenta com assiduidade o noticiário internacional, pelos seus feitos e conquistas, dificuldades e desacertos, mas, sobretudo pela quase miraculosa capacidade de sobreviver e prosperar sob o cerco draconiano que lhe vem sendo imposto pelos EUA há mais de cinco décadas consecutivas, não obstante reiteradas condenações da Assembleia Geral da ONU.

Desde a primeira medida revolucionária que foi a Lei da Reforma Agrária, passando pelas nacionalizações e por muitas outras de cunho socializante, Cuba registrou avanços sociais notáveis, a começar  pela Campanha Nacional de Alfabetização que produziu como resultado, dois anos depois do seu início, reconhecimento pela UNESCO de Cuba como  território livre do analfabetismo. Paralelamente à vitória na batalha do lápis, Cuba venceu a batalha pelas armas, em Playa Girón, ao derrotar a tentativa de invasão do seu território por tropas mercenárias a mando de Washington.

Inúmeras crises se sucederam tanto as internas decorrentes da busca de um caminho próprio para a reconstrução em novas bases do desenvolvimento econômico e social inclusivos, e também noutras vertentes, como aquelas derivadas da inserção de Cuba no contexto da disputa bipolar entre EUA e a URSS e os seus respectivos aliados, dentre as quais se destacam, pelo seu significado internacional: a expulsão de Cuba da OEA; o bloqueio econômico e comercial decretado em 1962 pelos EUA; a crise dos mísseis soviéticos em solo cubano; a participação cubana em processos revolucionários em países  da América Latina e da África.

Em relação ao continente africano, a decisiva participação de Cuba, a pedido do MPLA, na defesa de Angola invadida pelo regime racista sul-africano, ao Sul, e pelo Congo Kinshasa, sob o regime unipessoal de Mobutu Sese Seko, ao Norte, constitui capitulo especial das relações internacionais. Essa participação, e mais do que isso, o seu resultado, com a derrota do regime racista na épica Batalha de Cuito Cuanavale significou  uma viragem na história da África contemporânea e desempenhou papel de garante da sobrevivência da própria Revolução.  Nessa batalha – consagrada nos manuais militares como uma das mais renhidas e prolongadas depois da II Guerra Mundial –  confrontaram-se as FAPLAs  e tropas da FAR (contingente de 36 mil militares cubanos, mais equipamentos de guerra), de um lado, e forças militares do regime racista sul-africano apoiado por potências ocidentais, foi destruído o mito da invencibilidade do exército da África do Sul. Essa derrota obrigou o regime do apartheid a subscrever os Acordos de Nova Iorque, que deram origem à aplicação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de segregação racial, que vigorava na África do Sul.

A forte dependência da monocultura da cana-de-açúcar e do petróleo importado, agravada pelo bloqueio atingiu níveis críticos no início dos ‘80  com o debacle da União Soviética e o esfacelamento do chamado socialismo real na Europa Central o que se traduziu num período de graves agruras econômicas e insuportáveis dificuldades sociais para Cuba.

O reordenamento geopolítico global e a convicção cubana da necessidade de defender e preservar as conquistas revolucionárias e de consolidá-las e ampliá-las conduziram e vêm se manifestando através de medidas governamentais tanto na esfera da crescente democratização do exercício da política e noutros domínios da vida pública e privada, como de ajustes no âmbito  da economia e em outras áreas, e cujo grau de acerto e propriedade somente o tempo nos dirá.

O que se pode em resumo dizer de Cuba, decorridos 55 anos da sua Revolução? É um país vitorioso que amadurece, aprende com os seus próprios erros, bebe da experiência alheia e, sobretudo, se reinventa a partir de sua gente, de suas dificuldades, de seus escassos recursos materiais e também da boa convivência com os seus amigos e parceiros. Mas, sobretudo, é um país, indoblegable.

Créditos de imagem: embassyworld.com

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