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O aipo, vegetal conhecido mundialmente na culinária desde o século XVIII, defendeu-se da acusação dos naturalistas de que produz substâncias cancerígenas. Segundo o legume, a produção de toxinas é característica comum aos vegetais e funciona como autodefesa.

Nesta entrevista exclusiva, ele defende o uso de agrotóxicos e ataca os naturalistas a quem chama de “psicopatas”.

Repórter – Fico contente que tenha podido nos atender, pois sabemos que sua agenda é sempre cheia, principalmente depois dessas experiências com que o professor Bruce Ames vem desmoralizando os macrobióticos, naturalistas e outras seitas gastronômicas. É verdade que o senhor teve que contratar um guarda-costas?

Aipo – Imagine só, eu, um dos mais fortemente consolidados vegetais do mundo, me vejo de uma hora para outra ameaçado de extermínio. E só porque o tal de Ames me dedurou ao Lulutzie (Lutzemberg)¹ e seus coleguinhas verdolengos, justamente ele que tinha sido meu amigo. Se não fosse o Gogoldie (Goldemberg)² eu estaria frito. Mas antes de mais nada quero esclarecer que sou como o Gogoldie e o Lulutzie, detesto entrevistas, detesto a ribalta, sou modesto em demasia e só me decidi a aceitar o convite porque o que tenho a dizer é muito importante e pode salvar a humanidade das garras dos naturalistas.

Repórter – Mas antes tenho que colher alguns dados sobre o senhor.

Aipo – Sou originário do Mediterrâneo e romanos e gregos já comiam meus antepassados. Tudo bem. Um aipo de boa família conhece o seu lugar. Não é conformismo, é a cadeia alimentar. Todo aquele que come é comido um dia. E o pior é o homem, que com toda a sua arrogância, vira comida de tatu e verme e acaba sendo nutriente de aipo. Um dia é do homem e outro do aipo. Meus netos vão encorpar seus tecidos verdolengos com os restos mortais de muitos cadáveres humanos e de outros animais. Não é um pensamento reconfortante? Mas há um senão. Eles vão estar cheios de clorofórmio, o que é pior que agrotóxico. Mas voltemos à sua questão. Foi, entretanto só no século XVIII que realmente tornei-me um clássico de culinária. Até então era pequeno e pouco atraente. Um pouco de seleção bastou para me tornar mais suculento e foi mesmo possível reduzir em algumas variedades o meu gosto amargo. Aliás, esse é o meu traço de caráter diferenciado, o sarcasmo. Somente no século XIX, entretanto, que me deram esse nome científico Apium graveolens. Se o senhor preferir me chamar de graveolens, fico tão satisfeito como fica o Gogoldie (Goldemberg) quando o chamam de ministro. Até baba.

Repórter – Isto nos leva aos nossos dias e sua súbita notoriedade. Caso único na história dos vegetais e da humanidade, que alguns o vejam como salvador da vida sobre o planeta e outros como o exterminador universal. Como explica esse absurdo dualismo?

Aipo – Os homens só entendem qualquer problema antropomorficamente, ou seja, para ele o único referencial possível é o próprio homem, embora haja muita gente neste seu país com jeito de vegetal. Você já viu alguma coisa mais  parecida com um rabanete do que o Kandir? E não existe sósia mais fiel do Teixeira, da Petrobrás, do que uma alcachofra. Você não acha? Mas vamos em frente com um exemplo extraído da história da humanidade, pois não há muita diferença entre o homem e o vegetal. Desde o ninjutsu dos espiões japoneses até o kung-fu dos monges budistas, foram práticas desenvolvidas por organizações destituídas, por uma razão ou outra, de suas armas. O aipo e os demais vegetais apenas seguem o exemplo dos homens. Você sabia que o meu correligionário, o tomate, teve seu consumo no século XVIII proibido porque era venenoso? Pois também é capaz de produzir solanina, embora em menor quantidade que alguns de seus parentes próximos, como o assassino Solanum dulcara, é verdade. Vegetais em geral produzem uma variedade de substâncias tóxicas e cancerígenas para se defenderem de fungos, insetos e uma multiplicidade de outros predadores. Com a proteção fornecida pelo agrotóxico, as plantas perderam a capacidade de produzir essas substâncias. Abaixaram a guarda.

Repórter – É esse também o caso do aipo? Então por que estão querendo acabar com a sua espécie? Não faz sentido.

Aipo – O movimento ecológico, ao eliminar o agrotóxico em certas plantações, nos deixou indefesos e não tivemos outra saída senão recuperar progressivamente nossas defesas. E foi aí que o aipo natural passou a produzir uma quantidade de substâncias cancerígenas dez vezes maior que o aipo tratado com agrotóxico. O tiro saiu pela culatra. E a culpa não é minha. É um simples direito de autodefesa. Reconheço a superioridade do homem, mas tenho que sobreviver. Que o Lulutzie (Lutzemberg) me perdoe. Mas vocês têm que escolher o menor dos males. Ou nos protegem com agrotóxicos produzidos por vocês, homens, ou têm que ingerir todas nossas toxinas e carcinógenos que temos que produzir para a nossa defesa. E qual dos dois será o mais competente, o homem ou o aipo?

Repórter – Queria saber sua opinião sobre as relações entre os vegetais em geral – e o aipo em particular – com o Homo sapiens, antes desses conflitos exacerbados pelo naturalismo.

Aipo – A relação é complexa. Um de nossos psicanalistas desenvolveu uma teoria semelhante àquela sobre a progressiva identificação entre a vítima e o torturador. Mas esse não é senão um caso particular de um dos clássicos mecanismos de defesa denominado “identificação com o agressor”. O vegetal é explorado e cruelmente abusado pelo homem. Anna Freud diria que uma possível solução para o ego do vegetal seria se identificar com o homem. E, se a esse fenômeno aliarmos aquele da identificação reversa, chegaríamos à conclusão de que também o homem se inclinaria à identificação com o vegetal. Você já viu alguma coisa mais parecida com um vegetal do que um vegetariano? E vou fazer uma confissão. Nós vegetais temos que reconhecer que, em média, somos mais chatos que os mamíferos, por exemplo. A começar pela nossa vida sexual. E você conhece casta mais chata do que vegetarianos? Além do mais, é bom que fique claro, não sinto grande amizade por vegetarianos. Tudo bem, quando um humano come uma saladinha, um aipo ensopado, como se faz na Europa, ou como aperitivo, como preferem os americanos. Mas essa obsessão sádica que têm esses psicopatas, os vegetarianos, já é demais. Você sabe que não temos pesadelos com aranhas gigantes ou monstros extraterrestres nos perseguindo por túneis escuros, mas com hordas de vegetarianos, macrobióticos e naturalistas de todas as espécies? É uma angústia.

Repórter – O senhor tem alguma mensagem para a humanidade?

Aipo – Mais um ensinamento do que um conselho. Acautelem-se com os ecologistas, com os naturalistas, macrobióticos e outras seitas, principalmente aquelas com tendências vegetarianas. A primeira regra é muito simples. Escolha sempre vegetais e frutos bichados. Quanto mais praguejado melhor. Se o inseto, o fungo, o ácaro, rejeitam uma fruta ou um vegetal é porque este tem defesas próprias, tipicamente umas 50 toxinas ou, alternativamente, uma carga convincente de agrotóxicos. Nada mais perigoso para o homem do que uma saudável maçã, sem qualquer mancha ou furo. Nada mais saudável do que uma goiaba bichada. Confie no bicho da goiaba, aquele delicioso vermezinho branco. Ele sabe melhor que você se a goiaba contém toxinas ou agrotóxicos. E não acreditem nisso porque os cientistas afirmam, mas porque é a lógica da natureza. E esperamos que surja um dia um novo naturalismo, lojas com centeio carunchado, frutas praguejadas, pão embolorado. O verme como paradigma e a marca como conselheira. Morte ao naturalismo asséptico, puramente cosmético de nossos dias! Viva o agrotóxico!

Créditos de imagem: bixodagoiaba.com.br


Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de 27/11/1990.

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Rogério Cerqueira Leite
Membro da Sociedade Americana de Musicologia