Em Análises e Reflexões, Destaques

A profissão de inúmeros comentadores econômicos dos chamados “países emergentes”, em particular aqueles da América Latina, consiste, a serviço dos especuladores do mercado financeiro, em se fazerem de bobo e dizer toda sorte de tolices capazes de tirar o sono dos leitores e ouvintes apressados. O joguinho tem um foco fácil de explicar: quanto mais o ouvinte se ferra, mais ele – o comentador – ganha…

Como dizia o velho Bezerra da Silva, “cobra mandada” … Em nosso país, a produção industrial está sempre de 15 a 20% de onde deveria estar criando-se o quadro estranho de que muito importamos, mas o mais desse muito poderia haver sido produzido aqui. Daí a constante indexação para cima dos preços dos bens no varejo, criando a expectativa de que logo a onda inflacionária – o Tsunami dos anos 80 – voltará. A mídia consegue inflar tanto tal expectativa que ainda se fala em “Plano Real” em 2014…

Semelhante “terrorismo econômico” corre solto e parece até ser estimulado justamente por aqueles setores que mais lucram com a atual conjuntura econômica. Bem se entende o ditado, “há louco pra tudo”… Se o sujeito ganha com importações, não basta o que ganha, quer ganhar mais… Aquele que ganha com exportações tem o mesmo procedimento, mas torna-se difícil ver a contribuição que a ganância e o egoísmo trazem para o bem comum. Talvez falte algo que houve no passado e haja permitido a Adam Smith ver a beleza do mercado como criador espontâneo (faltará a escravidão para subsumir todos os custos?)

Certamente que sim. Mas falta também aos atuais governos locais a firmeza de aplicar uma política flexível, no entanto centrada no interesse chamado nacional que seja nacional. Sem uma estratégia de Estado, sem uma política de fundo que objetive o crescimento e o bem estar, torna-se difícil deter ganhos duradouros. Ganhos que podem ser permanentemente incorporados a uma Nação não se obtêm maximizando o orgulho dos agentes externos nem tornando os externos aqueles agentes que, pela lógica histórica, deveriam ser e continuar internos. É difícil incorporar ganhos que resultam de concessões em excesso, que sejam fruto da violação de regras óbvias do bom senso em economia. Como um especulador que hoje se beneficia de juros de dois dígitos poderia se interessar pela produção e pelo progresso do país que ousa tal permitir? Ele só deseja – é claro – retirar e aplicar nesse país-arapuca com movimentos do mais curto prazo possível. Ou comprar-lhe as propriedades.

Devido à imposição da suposta necessidade de um superávit primário, restrição de que, por exemplo, a Alemanha não goza, vê-se o elaborador de nossa política econômica constrangido a constante elevação da outra variável que lhe resta no campo da dívida pública, qual seja, a taxa de juros.

A chantagem, pois, dos detentores da dívida, é que se deva continuamente proceder à elevação da taxa de remuneração da mesma. Isso criou e mantém a economia no famoso “stop and go” (ande e pare), que é a receita dos governos liberais para os países pobres (de espírito). Crescimento travado resulta daí a tendência ao bloqueio da industrialização e do consumo.

Nos últimos dois anos, tentou o governo controlar esse problema com incentivos ao consumo, principalmente redução de imposto para grandes empresas (a pior maneira de aplicar o incentivo). Ao mesmo tempo, combinavam-se a sustentação falsa da moeda doméstica, o excesso de compras no exterior e a deterioração dos ganhos das exportações, em virtude de uma dependência forçada e estimulada do comércio exterior, pelos grupos que dele lucram.

A contraparte tola dos conselhos liberais no nível internacional é, na política econômica local, o espírito de governicho, em que os republicanos bananeiros (ou bananas?) não tem coragem de tomar as medidas que são devidas, mas se limitam a bajular o capital estrangeiro e transferir para o exterior todo o controle de propriedade possível. Julgam que assim poderão perpetuar o endividamento e a má administração locais, quando na verdade estão apenas a importar mais fatores de instabilidade cíclica para a política.

Um dos resultados do entreguismo é ter-se que ouvir vinte e quatro horas por dia, o rugido da mídia, a serviço dos especuladores, seus ataques à política do governo (à parte certa da mesma) e às empresas domésticas, particularmente a Petrobrás. O ódio à Petrobrás é derivado da gula externa sobre o pré-sal. É óbvio: quanto mais caluniada a Petrobrás, mais cai o preço de suas ações, que são assim compradas barato pelos que desejam açambarcar os lucros futuros do pré-sal.

Enquanto isso, nós todos – os chamados brasileiros – olhamos para o outro lado. E já estou cansado de responder para certos alunos a pergunta:

– Por que a Petrobrás é tão mal administrada?

Créditos de imagem: justicenews.org

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