Em Artes, Destaques

O termo indígena significa proveniente “do local” em oposição a alienígena que quer dizer “de fora do local”. Há uma grande confusão não somente quanto a terminologia, mas também quanto ao conteúdo no que diz respeito aos conceitos de Arte popular, folclórica, primitiva, naive, até mesmo porque os limites entre eventuais diferentes campos são difusos, inconsistentes. Todavia, a análise, amadorística embora, apresentada em seguida, de uma pintura representativa de arte popular (naive?) de uma província do Norte da Índia, Mithila talvez traga algum esclarecimento. Este é apenas uma dentre várias regiões onde ocorreram verdadeiras eclosões de arte popular na segunda metade do século 20, cada uma delas com traços peculiares específicos da região.

Tradicionalmente, em várias cidades de Mithila, mulheres do povo costumavam  pintar com pigmentos minerais coloridos as paredes internas e externas e solos de suas casas que eram construídas com reboque, fosse de barro, fosse de fezes de gado bovino ressecadas. Aos poucos padrões específicos foram desenvolvidos e uma rica simbologia incluída. Em Mathila especificamente, percebendo o potencial dessa atividade, o governo local distribuiu papel e pigmento natural para as mulheres, e rapidamente uma escola de “artesanato” se desenvolveu. E o artesanato foi transmutado em Arte Popular. Há pouco mais de dois anos, visitei no Museu do Quai Branly uma mostra extensa dessa arte proveniente de 5 ou 6 regiões da Índia.

A figura mostra um exemplo dessa arte desconcertante para os ocidentais criados e viciados em suas fórmulas e formas tradicionais. O personagem é Shiva caracterizado pela pele cinza, pela Serpente que leva em torno do pescoço, pelo cabelo longo (a força do rio Ganges) e capuz.

Como é bem conhecida na tradição das Artes Plásticas da Índia a figura masculina de homens e Deuses poderosos é amenizada com traços femininos. Aqui uma face feminina adorna o ventre de Shiva, uma característica acentuada nas manifestações artísticas em Mathila.

Outras fortes indicações que é de fato Shiva de que tratamos é o tridente em forma de lira em uma das mãos da direita do Deus e, na esquerda uma flauta levada a Boca, pois Shiva criou o som primordial.

Shiva está acompanhado por Nandi, o touro, sua montaria tradicional, mas aqui é que vemos a imaginação peculiar desta pintora, pois Nandi leva uma cabeça claramente feminina com alguns traços faciais comumente encontrados em retratos de Parvati. Abaixo de Nandi, a representação permanente de Shiva, o lingan é banhado por leite, ou seja, esperma, que sai de quatro tetas, aparentemente de Nandi. Assim a artista teria fundido dois defensores, Nandi e Parvati, de Shiva, ou seria Kali, avatar feroz de Parvati, pois o fundo do quadro está repleto de flores, o ambiente que sempre acompanha Kali.

E por fim a moldura deste quadro é característica de Mathila, e não é encontrada em qualquer outra região da Índia.

Pois bem, este exemplo deixa clara a evolução da arte indígena. Uma aplicação prática, esconder as paredes escuras e mesmo repulsivas com pinturas multicoloridas, se transforma em um artesanato que supre necessidades básicas da população. Esta tradição se confirma como arte popular quando estabelece estilo próprio e passa a caracterizar a região. Posteriormente, artistas passaram, dentro dos limites estabelecidos pelo estilo e outros elementos que esta arte popular convencionou, traços específicos próprios o que pode significar o que chamamos arte naive.

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