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Há músicas que são como cometas, que surgem no horizonte, esperadas ansiosamente por todos, passam radiosas e indiferentes pelos céus de nosso cotidiano, e depois se afastam discretamente, deixando apenas uma leve lembrança de sua luz, mergulhando no abismo do esquecimento por outras tantas décadas.

Quem se lembra de ter ouvido a Terceira Sonata para piano de Brahms em concerto nesses últimos dez ou vinte anos? Ou as Canções sem Palavras de Mendelssohn?

Foi preciso que um outro cometa de outra natureza, Nikita Magaloff, viesse em grande alarido, dizendo-nos com seus dedos Românticos o quanto estamos perdendo.

Hoje, se olharmos o firmamento, vemos alguns maravilhosos focos de luz que não sabemos se são cometas passageiros ou sóis perenes. Há trinta anos não se ouviam as três últimas Sonatas de Schubert, ditas do opus postumum. Hoje seu brilho domina o horizonte, é verdade, mas por quanto tempo?

E Schumann, em seus Fantasiestücke Op. 12 e a Fantasia em Dó Maior Op. 17 já estiveram tão alto no firmamento e hoje parecem como os dióscuros em noite de neblina, se afastarem discretamente.

E quem se lembra dessa fulgurante passagem, lá pelas décadas de 40 e 50, pelo sistema solar, do Prelúdio Coral e Fuga de César Franck? Teria sido apenas pelo amor e dedicação de Cortot?

A realidade, entretanto, é que ninguém mais toca essa obra-prima indiscutível. Por que seria? Além da eloquente, mas desgastada gravação de Rubinstein e outra de Cherkassky, nada encontro no catálogo Schwann de discos compactos. Quem virá para ressuscitar essa magnífica peça?

Brendel fez um esforço para recolocar no cenário as Fantasias de Schumann. E Radu Lupu parece estar patrocinando a Terceira Sonata de Brahms. E é verdade que Barenboim colocou com seu costumeiro profissionalismo as Canções sem Palavras de Mendelsshon em disco compacto.

Mas nem Barenboim tem o lirismo sutil de Guiomar Novaes no Mendelssohn, nem Lupu se aproxima do vigor dramático de Serkin ou Claudio Arrau na Terceira de Brahms.

Parecem ambos intérpretes recentes, que estão fazendo uma obrigação, como todo bom profissional, mas sem fogo, sem arrebatamento. Talvez porque não tenha chegado o tempo ainda desses cometas voltarem para sua visita periódica a essa terra de mortais.

É preciso, entretanto, por uma questão de sobrevivência, não tomar um desses cometas por um sol ou por uma estrela, por mais heroico e brilhante que seja. Cometas são para ser esperados longamente e admirados por um breve período de tempo. E depois devemos deixá-los partir e ansiosamente esperar o seu retorno.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 11/06/1989

Mendelssohn

Guiomar Novaes Various Songs Without Words

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Imagem: Galeria Berenice Arvani/Press

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