Em Conjuntura Internacional, Destaques

Por Pepe Escobar

Pequim está fazendo avançar uma globalização tracionada pela China, que desafiará regionalmente e globalmente a hegemonia dos EUA.

No início da semana passada, o primeiro trem comercial chinês, com 32 contêineres, chegou a Teerã, depois de viajar menos de 14 dias, partindo do gigantesco entreposto de Yiwu em Zhejiang, leste da China, cruzando o Cazaquistão e o Turcomenistão.

É viagem de 10.400 km. Crucialmente, é também nada menos que 30 dias a menos de viagem, se comparada à rota por mar, de Xangai a Bandar Abbas. E ainda nem se falou sobre o trem de alta velocidade – que estará em operação dentro de poucos anos, ligando o leste da China ao Irã e dali também à Turquia, e, não menos importante, também à Europa Ocidental: serão trens de transporte para 500 contêineres (e mais), atravessando a Eurásia feito uma flecha.

Quando Mohsen Pour Seyed Aghaei, presidente das Ferrovias Iranianas, observou que “os países ao longo da Rota da Seda anseiam por reviver aquela ancestral rede de rotas comerciais” – nada fazia além de tocar muito de leve a superfície de um processo de mudança tectônica.

O presidente chinês Xi Jinping só visitou o Irã no mês passado – o primeiro líder global a chegar, depois que as sanções foram levantadas. Então, os herdeiros das antigas potências da Rota da Seda – a Pérsia Imperial e a China Imperial – assinaram devidamente os tratados e acordos necessários para fazer crescer para $600 bilhões o comércio bilateral, ao longo da próxima década.

E é só o começo.

Guerras Comerciais e Batalhas Terra/Mar

Para enquadrar numa perspectiva estratégica todo esse processo de mudança tectônica, do ponto de vista chinês, é iluminador voltar a um discurso muito importante, do verão passado, que o general Qiao Liang fez na Universidade da Defesa, principal escola militar da China. É como se as formulações de saíssem diretamente da boca do dragão – Xi –, em pessoa.

A liderança em Pequim avalia que os EUA não farão guerra contra a China nos próximos dez anos. Muita atenção ao recorte temporal: 2025 é o prazo que Xi prevê para que a China se tenha convertido em sociedade “moderadamente próspera”, como parte do Sonho Chinês renovado. E Xi, por sua vez, terá cumprido seu mandato – banhado em glória que, como se espera, só será comparável à glória que foi apanágio do próprio Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping.

O segredo dos próximos dez anos, como os delimitou o general Liang, é a China ter reformatado a própria economia (obra em andamento) e internacionalizado o yuan. Implica também conseguir firmar um pacto de livre comércio pan-asiático – que obviamente não é a Parceria Trans-Pacífico, “TPP-sem-China”, dos EUA, mas a Parceria Econômica Regional Abrangente, PERA [orig. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP)] puxada pela China.

O general Liang conecta diretamente a internacionalização do yuan a algo que vai muito além das Novas Rotas da Seda ou de “Um Cinturão, Uma Estrada”, segundo a denominação chinesa oficial. Ele fala em termos de um acordo de livre comércio do nordeste da Ásia, mas o que realmente está em jogo aí, e o real objetivo da China, é o acordo de livre comércio trans-Ásia.

Consequência disso, o mundo será dividido por um “efeito onda de choque”:

“Se só 1/3 do dinheiro global está em mãos do dólar, como a moeda dos EUA pode manter a liderança? E EUA esvaziados, tendo perdido a liderança monetária, poderão continuar a ser líderes globais?”

A questão chave, pois, dos “recentes problemas” da China, segundo a liderança em Pequim, é o declínio do dólar norte-americano. E sob aqueles problemas vê-se sempre “a sombra dos EUA”.

Entra em cena o “pivô para a Ásia”, dos EUA. Pequim claramente interpreta o objetivo da ‘pivotagem’: visa a “desequilibrar o momentum do poder ascendente da China”. O que leva à discussão sobre o antigo conceito AirSea Battle (que agora “evoluiu” e está convertido em outro monstrengo), que o general Liang qualifica como “dilema intratável” para os EUA.

“A estratégia reflete, primariamente, o fato de que os militares norte-americanos estão enfraquecendo” – disse Liang. “As tropas dos EUA habituaram-se a pensar que sempre poderiam usar ataques aéreos e a Marinha contra a China. Agora, os EUA percebem que nem a Força Aérea nem a Marinha, elas sós, podem obter vantagens contra a China.”

Bastaria o parágrafo acima para pôr tudo em perspectiva, o tumultuado jogo de gato e rato de avanços chineses e abusos norte-americanos no Mar do Sul da China. Pequim está muito claramente consciente de que Washington não pode.

“neutralizar algumas vantagens que os militares chineses estabeleceram, como a capacidade para destruir sistemas espaciais ou atacar porta-aviões. Os EUA precisam de dez anos de desenvolvimentos e sistema de combate mais avançado para neutralizar as vantagens que os chineses estabelecemos. Significa dizer que os EUA só podem agendar guerras para daqui a dez anos.”

Há guerra. Temos de planejar

Quer dizer que nada de grande guerra até 2025, o que deixa Xi e a liderança do Partido Comunista Chinês livres para avançar feito rolo compressor. Observadores que seguem os movimentos de Pequim em tempo real dizem que a coisa é “de deixar qualquer um de boca aberta” ou “cena que não se pode perder”. Washington não dá sinal de perceber coisa alguma.

Nos festejos do Ano Novo Chinês, do Macaco, o Partido Comunista Chinês, sob ordens de Xi, distribuiu sensacional cartoon hip hop em vídeo que logo megaviralizou. ‘Soft power’ à moda chinesa; eis como a plataforma de Xi para seu mandato de dez anos, até 2023, foi anunciada às massas.

Entram em cena os Quatro Abrangentes [ing. Four Comprehensives]: 1) desenvolver “sociedade moderadamente próspera” (que se traduz em PIB per capita de US$10 mil); 2) continuar a aprofundar as reformas (especialmente do modelo econômico); 3) governar sob o império da lei (é ideia complexa; mas, essencialmente, significa a lei interpretada pelo Partido Comunista Chinês [o que, por pior que seja, NÃO PODE ser pior do que “a lei interpretada pelo Grupo GAFE (Globo-Abr-FSP-Estadão)”]; 4) eliminar, do Partido Comunista Chinês, a corrupção (longo trabalho, sempre em andamento).

Nenhum desses abrangentes, é claro, implica seguir modelo ocidental; bem ao contrário, mostra Pequim respondendo, em todos os domínios, ao soft power ocidental.

E então, inevitavelmente, todas as estradas, mais cedo ou mais tarde, levam a “Um Cinturão, Uma Estrada”.

E o general Liang vê esse movimento como muito além de um processo de globalização à “moda norte-americana”, globalização “dos dólares”.

Liang – e a liderança em Pequim – não veem a noção “Um Cinturão, Uma Estrada” puxada pela China como algum tipo de “integração no sistema econômico global. É erro dizer que o dólar continuará a globalizar e a integrar [o mundo]. Como grande potência emergente, “Um Cinturão, Uma Estrada” é o estágio inicial da globalização promovida pela China.”

Dizer que é plano radicalmente ambicioso, é muito pouco. Assim, dado que a noção “Um Cinturão, Uma Estrada” é o vetor externo do Sonho Chinês, consagrado a integrar toda a Eurásia em base “ganha-ganha” de trocas e comércio, ela é também “de longe a melhor estratégia que a China poderia conceber. É estratégia de contenção contra o movimento dos EUA para o Oriente.”

Aí está, pois – como venho escrevendo desde que a visão “Um Cinturão, Uma Estrada” foi lançada. É a “estratégia de contenção”, pela qual a China dá as costas à deriva dos EUA para o Oriente: você empurra para um lado, eu vou na direção oposta. Você mesmo me pressionou, não? Vou para o Ocidente, não para fugir de você, nem porque você me meta medo, mas para, inteligentemente, diluir a pressão que você aplicou sobre mim no Oriente. Bem-vindos todos ao pivô da China rumo ao Ocidente.

Fique à vontade, cerque-se o quanto quiser

O general Liang, como se poderia prever, prefere concentrar-se nos aspectos militares, não comerciais. E não poderia ser mais claro do que foi.

“Dado que o poder naval da China ainda é fraco, a primeira escolha de Um Cinturão, Uma Estrada deve ser competir em terra” – disse ele. Para Liang, o principal terreno de competição é demarcado pelo “cinturão” – Novas Rotas da Seda por terra; o que leva a perguntas preocupantes, ainda não respondidas, sobre as “capacidades expedicionárias” do exército chinês.

O general Liang não elabora sobre essa competição – provavelmente, parece, com os EUA – ao longo do cinturão da Nova Rota da Seda. Mas parece não ter dúvida alguma de que

“ao escolher a China como rival, os EUA escolheram o adversário errado e a direção errada. Porque no futuro, o verdadeiro desafio que os EUA terão de superar não é a China, são os próprios EUA. E os EUA serão o coveiro de si mesmos.”

E como acontecerá? Por causa do capitalismo financeiro. Parece que o general Liang andou lendo Michael Hudson[1] e Paul Craig Roberts (que ele com certeza lê). O general Liang observa que “pela economia virtual, os EUA já devoraram todos os lucros do capitalismo”.

E sobre a coisa de “ser coveiro”? Bem, o enterro será orquestrado “pela Internet, big data e a nuvem”, todos forçados “ao extremo”, que ganharão vida própria e comandarão a oposição ao governo dos EUA”.

Quem pensaria numa coisa dessas? Como se os chineses já nem precisem jogar Go: é só deixar que o inimigo se autocerque, ele mesmo.

[1] Por exemplo, A nova Guerra Fria financeira global, 19/2/2016, Michael Hudson (“Guns + Butter Interview”) Counterpunch [em tradução (NTs)]

Telesur [24/2/2016, (traduzido)]

Pepe Escobar. Jornalista e Analista de Conjuntura Internacional.


Imagem: cdn.emergentfocus.com

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