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Há músicas que escutamos depois de muito tempo, como quem revê um grande amigo que as circunstâncias afastaram de nossa vizinhança e de nossa mente. Ao ouvi-la, despenca um aluvião de reminiscências.

É muito mais do que uma experiência estética, ou mesmo afetiva. Há qualquer coisa de religioso em tudo isso. E essa é uma vantagem das pequenas obras.

Ninguém fica dez anos sem ouvir a Missa em Si Menor de Bach, por exemplo. Se ficar, não irá mesmo entender nada do que estamos conversando.

Ninguém fica dez anos sem ver a mãe. Mas aquele colega de juventude com quem jogávamos futebol, aquela namoradinha, que quase esquecemos o fulgurante brilho negro dos olhos, esses esquecemos, infelizmente. E quando, surpresos, os reencontramos, é como um riacho de águas límpidas, espumantes.

Pois bem, há músicas que são exatamente assim. Temos vontade de abraça-las, de carrega-las no colo, quando a reencontramos.

E como fazemos com esses amigos, devemos aproveitar esses breves momentos de inconsequente exaltação e depois afastá-los por mais dez anos.

Seria um erro lamentável tentar retê-los, esses amigos e essas músicas, convertê-los em objetos de nosso cotidiano. Iríamos banaliza-los.

Mas vamos guarda-los, com muito carinho para daqui a dez anos. O que precisamos entender é que há uma qualidade muito especial, certa fragilidade que não resiste ao uso diário.

É assim que sinto o respeito das Sonatas para piano e violino de Mozart. A cada dez anos elas me proporcionam uma experiência inolvidável.

Sentei-me, pois, para escutar a última gravação dessas dezesseis pequenas obras-primas com Bilson e Luca.

A primeira vez que ouvi essas Sonatas, ainda em discos de 78 rpm, foi com Lili Kraus e Goldberg. Havia qualquer coisa de magia e de inocência nessa série, que ambos os artistas vieram a reproduzir com outros parceiros, mais tarde.

Há hoje em CD outras versões e outras visões adequadas como as de Barenboim e Perlman, por exemplo. Mas aquele pequeno brilho cintilante da versão de Kraus e Goldberg só encontro nessa série com Bilson e Luca.

Espero que o leitor tenha a sabedoria de compra-la (são seis CDs) e, depois de ouvir com muito cuidado, guarde essas dezesseis Sonatas por dez anos. E quando ouvi-las, se não chorar e rir ao mesmo tempo, que me escreva reclamando.

Mozart escreveu as primeiras seis Sonatas quando ainda estava com vinte e dois anos, durante suas viagens a Paris e Mannheim. São tentativas ainda imaturas, se comparadas com os Concertos para piano da mesma época. Parece que o autor buscava uma fórmula estilística, e para tanto partia de suas Sonatas para piano solo.

O violino não era um parceiro, mas simplesmente um tímido acompanhante. E Mozart, o eterno pesquisador, em seu laboratório de sons, procurando sempre novos caminhos.

As sonatas do Barroco eram rejeitadas como modelo. As tímidas tentativas de seus contemporâneos de nada serviam. E Haydn, o onipresente paradigma, pouco ajudava.

Subitamente, após as indecisões da KV 296, desponta nas próximas cinco Sonatas a fórmula ótima. São as Sonatas maravilhosas de 1781, as de KV 376 a 380.

O violino é um interlocutor pleno para o piano. É um casamento desigual, entre instrumentos de sonoridades antagônicas; há conflito mas há diálogo. Nenhum problema se resolve, mas há colaboração. Um antigo e muito humano problema social.

Estava criada a fórmula impecável, se imperfeita, da sonata para piano e violino, que iria enfeitiçar o Romantismo, depois da exacerbação de suas ambivalências por Beethoven.

E que enfim Brahms viria aproveitar melhor que ninguém em suas três obras magníficas para a destemperada combinação de instrumentos tão díspares.

Que distância enorme daquelas pequenas e feéricas amigas inventadas por Mozart.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 28/05/1989.

WOLFGANG AMADEUS MOZART (1756-1791)

Piano and Violin Sonata in C Major KV6 – Mov. 1-2/4
Performed by Rachel Podger, violin Gary Cooper, fortepiano

play

https://youtu.be/whG9jcaxOA8


Imagem: revistaecclesia.com

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