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Getúlio Vargas costumava dizer que o povo tem inimigos, e os inimigos do povo não gostam de governantes que amam o povo. Portanto, o Papa Francisco que se cuide, porque embora italiano, ele chegou ao Papado como um representante da América Latina.

Neste continente, vê-se todos os dias a ação nefasta e gananciosa de uma elite que só faz renovar e estabelecer para si mais e mais privilégios. Hoje se chega a ver com saudades o tempo em que aqui no Brasil os grandes senhores de escravos eram apenas 82 mil, diante da prolífica e exponencial reprodução da classe dominante, com seu apetite que se multiplica sem cessar.

Um dos poços sem fundo que buscam alimentá-la é a famosa dívida interna. Controlada esta pelo comportamento ascendente da taxa de juros, tem no superavit primário o freio que impede – entre outros – o país de crescer.

Os governos – o nosso entre eles – são mantidos à rédea curta, quanto aos investimentos e gastos anuais, pelo feroz pitbull que é a mídia alimentada nos cofres públicos e pelos controladores do mercado financeiro. Qualquer subsídio voltado ao bem-estar da maioria, que poderia conformar um direcionamento nos desmandos do mercado, condena-se a ser cortado fora. A ameaça constante é o “galope inflacionário”, promovido pelos beneficiários da “ciranda financeira”.  É o deficit fiscal, ainda que os pobres sejam os que mais pagam impostos. O governo, aqui e ali, treme de medo. O custo político é cobrado de imediato pela mídia parafascista, mas também antipatriótica.

Sem a neutralização do câmbio, por via de sua administração, torna-se impossível impedir ou reduzir os efeitos da crise de capitais no nível doméstico dos preços. Capitais de curto prazo e flutuações do câmbio devem ser gerenciados. Não é possível modernizar as exportações sem uma política de expansão industrial. Confiar no barateamento futuro de uma importação que se expande é fabricar futuras dores de cabeça. Daí a importância do planejamento econômico. No lugar de guiar-se por receitas externas de sabor discutível, como a autonomia do Banco Central ou as metas de inflação, o governo local deve usar fortemente a sua soberania sobre a renda interna para assegurar o movimento de longo prazo de expansão da capacidade produtiva e do rendimento real. O controle de semelhantes variáveis estratégicas exige o controle do câmbio, das importações e da conta de capitais. Isso tudo – é claro – não pode se dar no universo da aceitação passiva das regras da globalização, com total liberdade de capitais e câmbio flutuantes.

Os preceitos universalistas das teorias dominantes ignoram tanto (1) a diferença de estrutura dos diferentes países que fingem considerar, quanto (2) a incompatibilidade de interesses entre ricos e pobres, produzindo o mesmo receituário para o comportamento de ambos, como se a Economia Política fosse uma espécie de religião: basta seguir o Livro Sagrado e a solução está garantida.

As decisões da natureza da política econômica a ser aplicada são feita pelos eleitores ao escolher um governo. À oposição cabe jogar limpo, nas regras democráticas, e aguardar a sua vez. Jamais governar à revelia da vontade majoritária, sob o disfarce de saber técnico, confiabilidade externa e outras piadas, próprias dos tremendamente ricos. A fonte do conservadorismo e do regressismo é a entrega do poder àqueles que não foram eleitos.  A quem tal ou qual política serve? Esta resposta os técnicos nunca podem dar, porque na verdade servem a minorias organizadas e muito ricas, que geralmente levam para o exterior a capacidade local de investimento (no caso dos países periféricos).

Um governo nacional, patriótico, e a serviço de seu povo certamente iria privilegiar metas de expansão material e de elevação do nível de vida, empurrando para segundo plano o lucro improdutivo e a especulação. A necessidade da expansão da base material em que vive nossa sociedade é evidente, com bairros que parecem vitimas de bombardeio recente, fardas, ausência de tuneis, pontes, calçadas, creches, jardins, e até prisões. Parece que Cabral desceu ontem do navio e tudo se encontra por ser feito. A ausência de equipamento social a serviço público da maioria torna a desigualdade extremamente difícil de se suportar, reduz a cacos o convívio social, é uma forma de virulência e estimula o crime. Tudo isso tem um custo também econômico, que se projeta como pressão inflacionária.

Quando 28% de nossas exportações se destinam a apenas dois países e consistem em bens primários, torna-se difícil falar, seja em globalização, seja em independência. Para onde tais países forem, aí vamos, recessão ou expansão, nada restando de uma suposta estratégia própria. Vulnerável por completo às flutuações externas, só resta ao governo – ou aos oligopólios que a ele comandam – as políticas de “desaquecimento” e de elevação da taxa de juros. Isto é, tornar os custos para o crescimento ainda maiores.

E a ausência de crescimento não é, certamente, o que escolhe a maioria dos eleitores.

 

Créditos de imagem: psdb.org.br

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