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Não faltam evidências históricas de que Machaut e Dufay passaram os últimos anos de suas vidas, revendo e preparando para a posteridade suas obras. Talvez tivesse sido uma prática mais comum do que se pensou durante a Idade Média e o Renascimento. Todavia, há poucos indícios de que tal preocupação tivesse sido importante durante aquele período que se estende, digamos, desde Monteverdi até Bach e que a tradição insiste em chamar de Barroco. É verdade que Bach e seus contemporâneos procuraram publicar algumas de suas obras. E às vezes com alguma insistência. Mas a impressão que fica é de que a motivação principal era de ordem financeira e, talvez também, a difusão em outras cidades e países. Mas a preocupação com a posteridade era certamente secundária.

Todavia, algumas das ações de Bach em seus últimos dez anos de vida podem ser interpretadas como uma preparação para o futuro.

O cuidado editorial que Bach teve com A Arte da Fuga, o Segundo Livro de O Cravo Bem Temperado e os Prelúdios Corais são indicativos da expectativa reservada para essas obras pelo seu autor. Também poderíamos suspeitar de alguma missão especial prevista para a Missa em Si Menor. É certo que Bach via suas quase trezentas Cantatas Sacras como obras de vida temporária. Seu contrato inicial em Leipzig previa uma nova cantata praticamente para cada evento litúrgico. Se fossem obras permanentes não teriam que ser tão frequentes. É, pois, natural que Bach procurasse recuperar o que fosse mais inspirado nessas obras perecíveis. Felizmente, uma série de acasos fortuitos permitiu que quase duzentas de suas Cantatas fossem preservadas. A Missa em Si Menor seria, assim, uma das súmulas resultantes. Essa teoria obviamente encontra objeções, primeiramente porque, como acontecera com os Brandenburgueses, a Missa também teve em sua versão inicial reduzida como finalidade exemplificar a arte do autor, em sua intermitente busca de melhores posições e salários.

Bem, qualquer que seja a conclusão, não restam dúvidas de que Bach colocava grandes esperanças nessa complexa antologia que incluía partes compostas desde 1714 até algumas especialmente concebidas para a ocasião. E, de fato, se pudéssemos distinguir, na produção de Bach, algumas composições como obras primas, a Missa em Si Menor estaria certamente entre elas.

A interpretação da Missa vem suscitando ultimamente alguma polêmica. Joshua Rifkin, musicólogo e regente, argumenta que Bach dispunha em Leipzig de um coro constituído de um único cantor para cada voz, e mais, os solistas eram esses mesmos cantores. Assim, a apresentação de uma Cantata de Bach não precisaria mais do que quatro cantores. O próprio Rifkin gravou a Missa com esse pequeno efetivo vocal com resultados relativamente satisfatórios.

Já que Bach via suas Cantatas como obras perecíveis, para uso interno, seria acadêmico colocar a questão de uma disponibilidade restritiva circunstancial como condicionante definitivo. Principalmente quando se trata de Bach. Ou melhor, é muito possível que Bach concebesse seus corais com as dimensões convencionais de época, mas que se conformasse em regê-los com o que dispunha, improvisando os ajustes sonoros que fossem necessários a cada audição. Eu tenho medo que Rifkin, ou algum outro purista da mesma sorte, descubra que alguns dos tubos do órgão da Thomasschule tenham estado entupidos durante toda a estadia de Bach em Leipzig e com isso vamos ser obrigados a ouvir os Prelúdios Corais em órgãos desdentados.

Além do mais, também é possível que Bach concebesse suas Cantatas para as forças limitadas de que dispunha então. Mas isso nada tem a ver com a sua expectativa para a Missa. E mesmo o fato de que o Sanctus tenha sido apresentado já em 1724 nada muda. Como também é irrelevante o fato de que a grande maioria das partes tenha sido extraída e adaptada de partes de cantatas, algumas das quais perdidas. Em sua forma final, a Missa não foi interpretada pelo grupo que Bach tinha à sua disposição em Leipzig. Nem sequer houve tentativa. E esse é um argumento pelo menos tão convincente quanto aqueles de Rifkin em favor de uma concepção mais generosa quanto às forças vocais.

Hoje, felizmente, desapareceram aquelas versões românticas que dominaram o cenário a partir do século passado. A histórica gravação de Scherchen na década de 50 colocou um ponto final nessa perversão grandiloquente. Leonhardt, Harnoncourt, Eliot Gardiner, Pinnock e tantos outros encontraram uma medida satisfatória para os coros de Bach. Solução intermediária entre Rifkin e as demais citadas acima é experimentada com relativo sucesso por Parrott.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 31/08/1986.

Johann Sebastian Bach

Mass in B minor

Vienna Philharmonic Orchestra

Andrew Parrott, Dir.

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