Em Cinema, Destaques

Em 2003 a bilheteria dos filmes nacionais saltou para 25% de participação no mercado das telas brasileiras. Em anos posteriores, essa participação caiu desse patamar, oscilando entre 10%, 18%, 22% – até se estabilizarem, depois de 2010, na faixa dos 25%. Esses resultados positivos tiveram origem nas grandes bilheterias de alguns filmes lançados no período (como “Tropa de Elite 2”, que chegou aos 11 milhões de espectadores em 2010/2011). Mas tiveram também base nas bilheterias de comédias leves, com certa carga de erotismo e linguagem televisiva que, desde então, mantém liderança nas bilheterias, fazendo, cada uma delas, de dois a cinco milhões de espectadores por ano. Essas comedias tem, geralmente, participação da Globo Filmes, seja na sua produção e distribuição, seja somente na sua distribuição. Dado o papel dominante da Globo, como maior empresa de comunicação do país, ela tem condições de ditar um estilo, uma forma de realizar filmes e, sobretudo, uma pesada hegemonia na distribuição. Com boa resposta de bilheteria, porque a maioria do público de cinema, hoje, está acostumada com o tipo de linguagem e de temática desses filmes, na medida em que eles representam uma espécie de continuidade da televisão nos cinemas, com uma pitada a mais de ousadia erótica. Esse sucesso faz com que o espaço dos filmes brasileiros nas telas seja diminuto para quase todos os filmes que não seguem a mesma receita. Enquanto as “globochanchadas” ocupam os horários nobres dos principais cinemas, os filmes de criação ficam relegados a dias e horários inviáveis nos pequenos cinemas. Isso se reflete nas bilheterias: um filme com a qualidade de “O Som ao Redor”, mesmo aplaudido em diversos festivais internacionais e com boa carreira no exterior, fez menos de cem mil espectadores no Brasil.

Devido a tudo isso, se olhamos de fora a situação atual do cinema brasileiro, não parece haver crise. Mas a crise começa a se insinuar por causa dessa monopolização temática que indicamos e, também, por causa de um outro fator gerado pela política oficial. Desde os anos 60 do século passado, as preocupações oficiais, secundadas pela luta dos cineastas, se concentrou em métodos para aumentar a produção de filmes, sem conseguir fazer grande coisa em relação à distribuição e exibição dos mesmos. Nos últimos anos, a ação efetiva da Ancine conseguiu, de fato, aumentar significativamente a produção de filmes no Brasil. Mas não conseguiu alterar a forma pela qual esses filmes vão para as telas dos cinemas (e para todos os outros meios de difusão). Espremidos no espaço pequeno que sobra do filme estrangeiro, os filmes brasileiros (com poucas exceções – as já referidas produções que seguem a cartilha da Globo) se acumulam, buscando lançamento, sem conseguir. Muitos filmes já estão 3 ou 4 anos na fila de espera para chegar nas telas. Hoje se fala que a produção de 2014 vai ser superior a 136 filmes. A maioria deles não vai ter tela pelos próximos anos. Há distribuidoras que alegam ter 70 filmes brasileiros na fila de espera por lançamento, acumulados da produção dos últimos anos. O gargalo se deslocou claramente da produção para a distribuição/exibição. Situação que só piora quando um “blockbuster” americano, como o “Jogos Vorazes 3” ocupa em seu lançamento, praticamente a metade das salas de cinema do Brasil. Então, sob a aparência de normalidade da produção crescente, a crise em nosso cinema se insinua pela falta de espaço nas telas, criando um acumulo de filmes não lançados. O que, a prazo não muito longo, vai ter sérias repercussões na própria produção cinematográfica. Provavelmente, estrangulando a produção de novos filmes.

Link para o artigo antecedente à este – Brasil cinema em crise (Parte 2)


Créditos de imagem: alimentarmente.it

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Renato Tapajós
Cineasta