Em Ciência e Educação, Destaques

Doutor Breu e Professor Pena são personagens de um encantador conto de Poe. Nele, papéis e expectativas de vida são trocados como se trocam roupas, ou como o tempo muda. Não deixa de ser, esse tipo de troca, um aspecto da conjuntura. Embora sejam determinados por ações relativas à sorte ou aà crua natureza, eles próprios determinam novos arranjos, problemas ou interações. Essa é uma boa comparação para estabelecermos o papel da conjuntura quando falamos de qualidade na educação superior. Desde logo, temos que admitir que qualidade é resultado de medidas, na maioria das vezes comparáveis. Um curso ou instituição pode ser bom quando é melhor do que outro. Mas, ainda assim, pode continuar sendo ruim. Ruim para quem? Para a sociedade, para os setores da economia que empregam profissionais de nível superior, para a formação de pesquisadores, para os governos que necessitam de quadros técnicos e dirigentes competentes. Um curso avaliado com nota máxima, 5, no Exame Nacional de Desempenho da Educação Superior  (ENADE) nos diz que ele é melhor dos que tiraram 4 para baixo. Se o conjunto desses cursos for de excepcional qualidade, todos, inclusive os bem de baixo serão bons para a sociedade. Se a maioria for de baixa qualidade, o curso é premiado, a instituição que o oferece também, mas a sociedade é, de alguma forma, penalizada. Daí inferimos, também, que qualidade depende não só de medidas, mas da conjuntura que estabelece a finalidade social do que está sendo avaliado. Cursos e instituições de educação superior têm um papel a cumprir na sociedade.  Sua amplitude depende de política pública, ou seja de interferência do Estado para que haja reconhecimento de finalidades e efetividades para o conjunto da sociedade e não só para os chamados atores privilegiados, como as próprias instituições e seus instituidores ou dirigentes, docentes e seus sindicatos, alunos e suas agremiações. O que diferencia um excelente curso de Engenharia ofertado nos anos 70 daquele em funcionamento hoje em uma renomada instituição é principalmente o currículo, sua organização flexível, seus conteúdos e suas adjacências, como tecnologias de informação e comunicação presentes em equipamentos, laboratórios e bibliotecas, sem falar nas novas metodologias ativas de aprendizado, no padrão de qualificação docente e nas obrigações institucionais em descrever políticas de desenvolvimento e auto avaliação. Bom, mas o que diferencia o egresso de um curso de Engenharia hoje, daquele dos anos 70 é sua capacidade de responder aos requisitos profissionais da empresa ou órgão público que o emprega. E esses são datados e dependentes da conjuntura econômica, política e social. Afinal, uma atividade profissional visa o desempenho da empresa ou a efetividade de uma ação governamental. Não seria, assim, possível que um curso ofertado hoje, com currículos defasados em relação aos requisitos profissionais contemporâneos ou ainda ultrapassados em relação ao estado da arte de sua área de conhecimento, pudesse receber um conceito avaliativo que atestasse sua qualidade. Para além de definir o pior do ruim e fornecer proteção à sociedade, o papel da avaliação da educação superior deve representar o incremento estratégico e dinâmico que a educação superior hoje fornece ao desenvolvimento econômico e ao bem estar da sociedade. Temos a condição estratégica de ter construído, há dez anos, a Lei do SINAES (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior). É necessário que todos tenhamos a consciência de seu papel no desenvolvimento do Brasil.

Créditos de imagem: assisramalho.com.br

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