Um dos magníficos talentos de Haendel é sua versatilidade ao lidar com estilos diversos. Não há nada mais alemão que um saxão, e Haendel nasceu na Saxônia. E nada há de mais eminentemente alemão que sua Paixão Segundo São João, composta em 1704, quando tinha o compositor apenas dezenove anos. (A primeira gravação dessa interessante obra acaba de ser lançada em uma interpretação elegante, para dizer o menos, de Pál Németh dirigindo a Capella Savaria).

Entre 1707 e 1709 fez Haendel três viagens a Itália e se tornou um dos mais importantes compositores no estilo italiano. Além de óperas, oratórios e música de circunstância de várias naturezas, compõe Haendel nesse período quase uma centena de cantatas profanas no estilo italiano. Steffani e Scarlatti, o pai, são as influências dominantes. O camaleão sofre sua primeira transformação se bem que muitas dessas obras sejam de textura bastante simples, com uma única voz e baixo-contínuo somente. Pelo menos 60% delas incluem instrumentos obbligati e, por vezes, movimentos puramente instrumentais. Algumas chegam a ser tão elaboradas quanto as cantatas de Bach anteriores a Leipzig.

Esse género foi logo abandonado por Haendel quando resolveu ser um compositor tipicamente inglês, ao estabelecer residência em Londres, não obstante sua prolongada aderência à ópera italiana. E suas cantatas, esse magnífico tesouro, têm recebido muito pouca atenção, pois quem levaria à sério a obra italiana de um jovem músico alemão que viria a preferir, entre tantas escolhas mais edificantes, viver na obscura Londres? Além do mais, uma tal prolixidez é para desconfiar. Quantidade e qualidade são quase sempre mutuamente exclusivas. E ainda por cima um saxão de vinte e poucos anos.

É claro que algumas dessas pequenas pérolas são há muito tempo conhecidas. Ora, acidentes. Meros acidentes. Mais eis que, inopinadamente, nos lançam nos braços uma enxurrada de discos dessas cantatas. Não somente aquelas cujas extensões se aproximam de uma pequena ópera-serenata, à maneira de Vivaldi, mas também aquelas de dimensões mais modestas, com apenas uma voz e baixo-contínuo em cinco ou seis movimentos. E que até recentemente permaneciam em algumas inacessíveis bibliotecas na forma de manuscritos originais ou de copistas da época.

Algumas obras-primas são imediatamente reconhecíveis. Aminta e Fillide recebe um tratamento primoroso por Denys Darlow e a Orquestra Haendel de Londres, ocupando um CD inteiro. O mesmo acontece com Apollo e Dafne, outra dessas cantatas-serenata com duração de quase uma hora, que é maravilhosamente interpretada por Judith Nelson e David Thomas com a Orquestra Barroca Philharmonia dirigida por McGegan.

Mas dentre essas peças mais extensas a grande descoberta é a Aci, Galatea e Polifemo que – é bom deixar claro – nada tem a ver, senão a lenda-enredo, com a pastoral do período inglês, Acis and Galatea. A super Kirkby é ladeada por Carolyn Watkinson e David Thomas e tem a colaboração da London Baroque dirigida por Medlam, em dois discos compactos. A super Kirkby gravou mais quatro cantatas-solo das Cantatas Italianas com o pessoal da Academia de Música Antiga, sob o infatigável Hogwood, de maneira simplesmente exemplar.

Mas Pinnock – que é o tradicional competidor de Hogwood – não fica atrás. A grande Jennifer Smith, com a colaboração do excelente John Elwes, constitui com o Concerto Inglês um rival à altura de quem quer que seja. Mas não fica atrás também essa maravilhosa dupla formada por Judith Nelson e René Jacobs e demais membros do Concerto Vocale em cinco das cantatas menos extensas. Ainda temos Esswood e Zádori com Németh, Ella e Falvay em uma generosa coletânea que contém doze dessas Cantatas a duas vozes. Embora sem o mesmo brilho que os antecessores, fornecem uma interpretação cheia de graça e de poesia.

São ao todo nove discos compactos. Durante a era do disco negro (LP) nunca se teve em catálogo mais que quatro ou cinco unidades contendo esse item da música de Haendel. E em um catálogo de compactos desse ano, encontro mais três discos das Cantatas Italianas de Haendel além daqueles nove já mencionados. Não posso, entretanto, recomendar esses últimos três, pois não os conheço – nenhum é de um desses intérpretes que podemos adquirir no escuro, ou melhor, no silêncio. Mas essa é uma situação promissora, com toda a certeza.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica.  São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 17/07/1988.

 George Frideric Handel

Cantata Quel flor che all’alba ride – Duetto XV-HWV.192

Academy of Acient Music

(Emma Kirkby/Susan Sheppard)

Dir. Chistopher Hogwood

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