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A cerveja produzida no Brasil não tem qualidade, é elaborada de maneira enganosa e já foi melhor no passado. A impressão é a de que todas são iguais, só mudam o rótulo. Quem afirma isso é o físico e professor emérito da Unicamp Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que sabe estar mexendo num vespeiro. Tudo porque decidiu expor sua opinião nada generosa em relação a uma das instituições mais veneradas do Brasil, a cerveja. Para ele, o que estamos bebendo é um suco de milho fermentado e não uma bebida feita com cevada ou malte. “A nossa cerveja mata a sede, mas não satisfaz ao paladar mais exigente”, cutuca. “Era melhor nos tempos em que havia competição entre os produtores. Hoje, parece evidente que as grandes companhias têm um poderoso lobby.”Foi num artigo que assinou poucas semanas atrás na Folha de S. Paulo (alusão ao texto A cerveja: bebendo gato por lebre – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1812200909.htm) que ele detonou a paixão nacional. O que escreveu não caiu no vazio. Nem poderia ser diferente. Uma semana depois, no mesmo espaço, o químico e mestre cervejeiro Silvio Luiz Reichert o rebateu, afirmando que a indústria nacional de cerveja tem tradição de mais de um século e produz bebidas de altíssima qualidade. “Como ele não aprecia um produto consumido e aprovado pelos brasileiros, levantou argumentos duvidosos para concluir que a nossa cerveja é ruim”, alfinetou. Nesta entrevista, Cerqueira Leite não elegeu a melhor cerveja do mundo, mas elencou algumas que considera seguirem um padrão de qualidade. E aproveitou para ironizar a publicidade brasileira, que associa a bebida a mulheres seminuas.  Edgar Olimpio de Souza

 

Em artigo recente publicado na Folha de S. Paulo, você argumentou que a cerveja brasileira é ruim. Isso significa que nós bebemos gato por lebre?

Sim. Todos nós ou pelo menos quase todos pensamos que estamos bebendo uma cerveja feita com cevada ou malte, ou seja, cevada germinada, quando em realidade estamos bebendo um suco de milho fermentado.O milho constitui quase três quartos da matéria-prima da cerveja brasileira. Ou seja, com pequenas e honrosas exceções, a nossa cerveja mata a sede, mas não satisfaz ao paladar mais exigente.

Para chegar a tal conclusão, chegou a fazer testes ou pesquisas específicas?

Não fiz pesquisas em laboratórios, apenas na literatura. A minha conclusão é baseada na disponibilidade de cevada no Brasil. É, portanto, uma conclusão indireta, mas de certa maneira consubstanciada por uma pesquisa realizada em um instituto estadual de São Paulo há algum tempo. O relatório desse estudo revelava que quase 50% do conteúdo da bebida era proveniente do milho.

A nossa cerveja sempre foi ruim ou é um fenômeno recente?

A nossa cerveja foi muito melhor nos tempos em que havia competição entre os produtores e esta disputa não era apenas com relação ao preço, mas também com referência à qualidade. Aos poucos o nível da cerveja brasileira foi decaindo.

De certa forma, a cerveja brasileira é barata. É possível ter um produto de qualidade com preço tão baixo?

De fato, uma cerveja de melhor nível, uma ale, por exemplo, tem os custos de produção maiores, além de precisar de uma quantidade maior de cevada e lúpulo de qualidade. Todavia, o bom bebedor de cerveja não se incomodaria em pagar mais por uma cerveja de qualidade relativamente boa. Há hoje no mercado nacional um grande número de cervejas importadas que ainda são caras por uma questão de escala e porque os importadores ainda não estão bem estruturados, mas já existe boa cerveja por preços acessíveis.

Acha que as cervejas de produção em massa no Brasil são todas iguais, que só mudam os rótulos?

A impressão que se tem é a de que as cervejas nacionais com rótulos diferentes tendem crescentemente a se igualarem. Aparentemente, é uma política das empresas produtoras.

 

Qual é a melhor cerveja brasileira? Existe alguma que se aproxime em qualidade das principais cervejas do mundo?

Não poderia dizer qual a melhor cerveja brasileira. Algumas tentam imitar as ales e tanto quanto as poucas que conheço não parecem muito bem sucedidas.

 A indústria cervejeira no Brasil tem grande poder de lobby e tráfico de influência?

Parece evidente que as grandes companhias de cervejas têm um poderoso lobby. Quando uniram a Brahma e a Antártica, dominando 70% do consumo nacional, elas convenceram as autoridades nacionais de que não estavam violentando as normas que regulam a formação de monopólios. Argumentaram que só assim poderiam concorrer no mercado globalizado. O incrível é que depois foram absorvidas por uma multinacional de capital estrangeiro e nenhuma providência foi adotada contra isso. O governo e o povo brasileiros foram enganados. Também não explicaram a prática perversa de coagir cervejarias nascentes, absorvendo-as ou banalizando seus produtos.

 Falta mais concorrência à cerveja brasileira?

Aparentemente, com o recente crescimento de importações de cervejas da Inglaterra, da Alemanha, da Bélgica e da Tchecoslováquia, deverão surgir cervejas de qualidade no Brasil. Esta é, entretanto, uma expectativa otimista.

Que país produz a melhor cerveja do mundo?

É muito difícil dizer qual país produz a melhor cerveja, pois gostos são diferentes. As cervejas mais elaboradas são as belgas, principalmente aquelas produzidas nos seis conventos trapistas, mas há outras cervejas belgas também de excelente qualidade. Gosto muito das cervejas inglesas do tipo ale, em especial aquelas denominadas ´bitter´.  Também as da Tchecoslováquia, do tipo larga, são de ótimo nível e muitos consideram as alemãs as melhores de todas, embora haja uma grande diversidade de tipos na Alemanha. As boas cervejas belgas, inglesas e alemães utilizam lúpulo de boa qualidade e dispensam o uso de antioxidantes e estabilizantes.

 

Na sua opinião, o que fez a cerveja se tornar instituição cultural brasileira?

A cerveja é uma instituição mundial e não brasileira. Em realidade, se olhamos per capita, o brasileiro bebe menos cerveja que os tchecos, os alemães, os ingleses etc. Trata-se de uma questão puramente econômica.

Por que todas as cervejas lançadas no mercado são apresentadas como leves?

O termo leve, acredito, é puramente propagandista. O que aparentemente acontece é que as cervejas brasileiras têm um teor de álcool relativamente baixo.

Poderia explicar por que foi imposta no Brasil a cultura de se servir cerveja estupidamente gelada? Qual é a temperatura ideal para servi-la?

Quanto pior a cerveja, mais gelada ela precisa ser, embora o mito da cerveja quente, ou seja, servido na temperatura ambiente como se supunha que os ingleses bebiam, está passando. Hoje eles têm meios para comprar geladeira. Além do mais, a temperatura ideal varia com o tipo de cerveja e também com o gosto peculiar de cada indivíduo.

 Como avalia as cervejas artesanais brasileiras?

Ainda não há uma tradição de cerveja de pequenas produtoras no Brasil. É uma ótima iniciativa, mas ainda está engatinhando.

 O que pensa a respeito da propaganda da cerveja brasileira? Quase toda publicidade mostra que o prazer de beber só é completo quando os homens estão cercados por mulheres seminuas.

Beber cerveja com mulheres seminuas em seu entorno desvia a atenção quanto à qualidade da cerveja, mas é compreensível que alguns prefiram esta situação.

*Entrevista publicada por Edgar Olimpio de Souza no blog Revista Stravaganza (http://revistastravaganza.com.br/index.php). Data: 11 de março de 2010

 

 

Créditos de imagem: choppodromo.com.br

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