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Ainda recentemente encontrei na Barners e Noble, da 5ª Avenida de Nova York, pequena relíquia da música do século XVIII. Editadas pela Sociedade Bruno Walter, em um único LP estavam incluídas algumas das interpretações da década de 40 de Landowska, acompanhada por uma orquestra regida por, imaginem só, Stokowsky, o hoje famoso Concerto para harpa ou órgão Op. 4 nº 6 de Haendel.

Embora sua première em 1733 tenha sido com a harpa, sou capaz de apostar que foi concebido, de fato, para o órgão, um positivo de dimensões modestas, certamente, pois na Inglaterra de meados do século XVIII não havia órgãos de grande porte.

Possivelmente não há exemplos, em discos, de tantas transgressões musicológicas, a começar pelo som modernizado do cravo de Landowska. Stokowsky parece querer incluir toda sua alma russa nessa pequena orquestra. E Landowska toca o delicado fraseado de Haendel como se fosse uma tocata de Bach. Esse disco não é uma reedição da versão com a mesma Wanda Landowska que fazia parte do repertório corrente nas décadas de 40 e 50, mas possivelmente uma extração pirata de uma gravação espúria realizada em concerto.

Adotei certa vez como prefixo de um programa de rádio em São José dos Campos, durante a década de 50, a gravação de estúdio com Landowska, tal era a exaltação desencadeada por essa obra apesar dos abusos estilísticos. E esse é um fato notável que ocorre com a música de Haendel. Nem mesmo o senhor Eleazar de Carvalho conseguiu comprometer integralmente O Messias.

Os Concertos, dezessete na melhor avaliação, são exemplos definitivos dessa propriedade única da música de Haendel, resistência inquebrantável ao mau trato. Talvez por causa da riqueza da inventividade melódica do compositor. Talvez por causa da sua humanidade, não sei. Haendel é um pouco como Balzac. Flaubert certamente tinha maior controle da forma, Proust uma compreensão mais profunda da alma humana, mas Balzac escreveu A Comédia Humana.

É claro que essa resistência específica ao abuso efetuado pelas transcrições e interpretações também depende da forma. Em princípio, um concerto deve ser menos vulnerável que uma sinfonia ou uma sonata. O estilo concertato, fundamentalmente baseado em contrastes, seja entre timbres, seja entre massas sonoras, seja entre ritmos, seja entre humores, dispensa mais facilmente as contingências formais que constituem a base da forma sonata e de seus derivados, incluindo-se o concerto clássico.

A primeira gravação dos Concertos Op. 6 e 4, doze ao todo, com Kraft, foi editada em começos da década de 50 da era LP, e foi para a minha geração, inesperada. Hoje está certamente ultrapassada, mas constituiu, então, acontecimento maior. É óbvio que os críticos mais snobs de então consideravam esses concertos como uma espécie de desfile de Haendel. Como seria possível conciliar tanta alegria e descontração, com a serenidade da música de concerto. Aliás, basta lembrar que, àquela época, os termos correntes para o segmento não popular do repertório musical era música séria, ou clássica, ou erudita.

Além do mais, o órgão é para as pessoas do século XX um instrumento de igreja, e música de igreja é necessariamente grave, sombria. Porém, essas peças foram escritas para o positivo, que é capaz de uma expressão leve, quase pastoril. Foi para esse tipo de órgão que Bach transcreveu alguns dos mais radiosamente exaltados Concertos de Vivaldi. Além do mais, Haendel concebeu os Concertos para órgão para execução durante os intermezzi de seus oratórios, que eram levados em salas de concertos e não em igrejas.

Haydn foi, talvez, o único outro autor a explorar extensivamente essa forma, o concerto para órgão. E apesar da qualidade das seis obras nessa categoria, muito pouca atenção recebem do público. E a razão é possivelmente, ainda nesse caso, de ordem prática, pois poucos são os órgãos cujos espaços adjacentes acomodam uma orquestra de câmera, embora de pequeno porte, ou configuram ambientes convidativos a uma forma musical que dificilmente pode deixar de ser leve. É justamente por isso que os concertos para órgão acabaram por encontrar no disco o seu melhor meio de realização.

Muitas são as opções existentes. A última versão, com Ton Koopman e a Orquestra Barroca de Amsterdã, pela qual faço opção hesitante, inclui os outros concertos avulsos, constituindo um pacote altamente atraente em compacto, por ocupar apenas três discos. Estilisticamente reproduz, até certo ponto, a versão de Wenzinger com Müller ao órgão, e a orquestra da Schola Cantorum Basiliensis também com os quatro avulsos. Outras opções aceitáveis são as de Harnoncourt e Tachezi, com a Concentus Musicus de Viena, a de Schröder e Chorpenza com o concerto Amsterdã, Marriner e Malcolm com a Saint Martin-in-the-Fields, e Preston e Pinnock com o The English Concert.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 19/10/1986.

G.F.HANDEL

Concerto pour Clavecin et Orchestre (HWV 294)

Wanda Landowska (Clavecin)

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