Em Destaques, Pequenos Contos

O serviço médico daquela cidade e centro universitário internacional havia se modernizado. Alunos se apresentavam em um único “hall”. Lá uma voz de alto falante dava instruções.

Para calouros estrangeiros o exame era mais aprofundado. “Coloque a roupa no trole vermelho”, dizia a voz eletrônica, “fique só de cueca ou sunga e siga a linha vermelha marcada no chão”. O trole, um recipiente suspenso em um trilho, semelhante a essas parafernálias que se veem em fábricas robotizadas. Amedrontado, aquele estudante estrangeiro, que mal entendia a língua local, marinheiro de primeira viagem, tirou a roupa. Mas eis que percebeu que sua cueca tinha um vasto rasgo atrás. Enrubesceu, todavia, criou coragem e foi em frente. A linha vermelha o conduziu a vários laboratórios e vários médicos e enfermeiros. Todos do sexo masculino, felizmente também na faixa vermelha só se via jovens apavorados, provavelmente originários do terceiro mundo.

Os autóctones seriam examinados em outro dia, por certo. O vexame não foi tão grande. A voz do alto falante anunciou que o exame continuaria no dia seguinte e dispensou a moçada. Apressou-se em comprar uma cueca nova, branca com bolinhas vermelhas. Foi a única que encontrou.

No dia seguinte, autoconfiante, seguiu as instruções da voz eletrônica. Não ouviu muito bem, mas captou a palavra amarela. Partiu atrás da linha amarela ostentando orgulhosamente sua cueca nova. Não chegou a ficar constrangido ao perceber que enfermeiros e mesmo médicos eram na maioria mulheres. Ora, esses povos de país desenvolvido são assim mesmo, meio liberados. Ao chegar ao fim do percurso notou que todos os colegas da linha amarela estavam sem sapatos, mas vestidos com calça e camisa esperando seu trole e riam dele. Ah, aquela maldita voz eletrônica!

Créditos de imagem: rawstory.com

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)