Em Destaques, Sem papas na língua

Da mesma maneira que há males que vêm para o bem, como diz o dito popular, há bens que vêm para o mal. O benfazejo Movimento pelas Diretas Já, trouxe a ruina da Universidade Brasileira. Como é possível que uma busca pela democracia, um valor maior da humanidade, possa resultar na degradação de uma qualquer instituição essencial para a sociedade. Pois é, eis como aconteceu.

Tradicionalmente reitores eram escolhidos por um colegiado restrito denominado Conselho Universitário que submetia ao Governador, se fosse em uma Estatual, ou ao Ministro da Educação, para uma Federal, uma lista tríplice. Esse colegiado era composto por diretores, de institutos e faculdades e representantes do corpo docente e do discente. É claro que a escolha dos candidatos envolvia negociações, mas os eleitores pela posição alcançada eram em sua maioria docentes e pesquisadores que entendiam os valores universitários e os preservavam acima de seus interesses pessoais, pois foram escolhidos pelos seus pares por estas mesmas características. Por sua vez diretores serão escolhidos pela congregação, colegiado composto principalmente por professores titulares, supostamente amadurecidos. Estabelece-se assim uma verdadeira democracia representativa do mérito, o que é essencial para a busca do conhecimento.

Pois bem, mobilizados pelo irresistível Movimento Diretas Já, corpos docentes, discentes e de funcionários se insurgiram contra as formas tradicionais de escolha de lideranças universitárias reclamando para si próprios o privilégio da referida escolha. Com isso verdadeiros partidos populistas se formam no interior da Universidade e como consequência impera a politica do “quem dá, mais leva”. E naufragam os primordiais valores universitários. O mérito passa a ser um palavrão. Candidato a reitor oferece cargos, pró-reitores são escolhidos não pelas respectivas competências, mas pelo número de votos que conseguiram angariar para o reitor eleito, ou seja, pelas respectivas habilidades politicas, de sedução.

E o pior é que pensam ou fingem pensar que este sistema é democrático. O Conselho Universitário seja por democratite equivocada seja por simples covardia se submete a essa parodia de Democracia e se resigna à condição de simples emissário da escolha entre a corporação e o governador. A Universidade é uma instituição criada pela sociedade e por ela mantida com a missão de produzir e difundir conhecimento. Somente a Sociedade, através de seus representantes, tem, portanto, o direito de escolher seus dirigentes. Quando a corporação interna usurpa essa prerrogativa de seu legitimo responsável, não pode fazê-lo em nome da democracia.

A consequência é o descalabro que vemos nas Universidades públicas brasileiras, onde a politicagem e a baixaria substitui os valores primordiais da Universidade a onde impera a mediocridade.

Créditos de imagem: todanovidade.com.br

Facebooktwittergoogle_plus
Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Comentar