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Por Marcelo Coelho

Se você é dos que acham não haver mais nada de interessante na vida e na obra de Karl Marx (1818-83), talvez valha a pena fazer um último teste, com dois livros (um bastante curto, o outro bem maior) lançados recentemente no Brasil.

Ambos realizam verdadeiras proezas de exposição e de clareza. Em menos de 200 páginas, o francês Daniel Bensaïd (1946-2010) sintetiza, em seu “Marx, Manual de Instruções” [trad. Nair Fonseca, Boitempo, 192 págs., R$ 43], o pensamento do autor de “O Capital”. Procura mostrar um teórico flexível, mais sofisticado e hesitante do que fazem crer as ortodoxias de esquerda e de direita.

A atualidade de Marx se destaca, por exemplo, na apresentação feita por Bensaïd a respeito do ateísmo do autor. Em vez de polemizar diretamente com a crença religiosa, atitude preferida por pensadores contemporâneos como Michel Onfray, Christopher Hitchens ou Richard Dawkins, os primeiros textos de Marx procuravam identificar as razões “antropológicas” para que surgisse a fé num Criador.

“A miséria religiosa”, diz Marx na introdução à “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, “constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida”. Só em seguida a essas considerações viria a frase famosa que diz que “a religião é o ópio do povo”.

O esforço de “Marx, Manual de Instruções” é atualizar o marxismo o mais possível, concentrando-se em particular na Europa de logo depois da crise de 2008.

O autor insiste na importância de não parar a leitura de “O Capital” no seu volume 1, resumindo em poucas páginas os temas do livro 2 (a circulação das mercadorias) e do livro 3, (o processo global da produção capitalista – ou, como diz Bensaïd com um olho no leitor jovem, “o acerto da grana”).

Sintomático dessa tentativa de capturar o leitor jovem, e em especial francês, é o recurso de acompanhar o texto com ilustrações feitas por Charb, diretor do semanário “Charlie Hebdo” que viria a ser assassinado por fanáticos islâmicos em janeiro de 2015.

Nessas charges simpáticas, mas um tanto infantis, é frequente que Marx apareça polemizando com Nicolas Sarkozy, ex-presidente da França que, na edição brasileira, não se julgou necessário identificar.

Não se trata de leitura “facilitada”, entretanto, e Bensaïd agrega ao final de cada capítulo uma bibliografia atualizada, diminuindo a impressão de que tudo já foi dito, repetido e superado a respeito de Marx. Não se espere, naturalmente, qualquer menção às críticas e dúvidas que a teoria econômica marxista suscitou.

Leitura vivíssima, pulsando de interesse, é o que oferece por outro lado o gigantesco “Amor e Capital” [trad. Alexandre Barbosa de Souza, Zahar, 976 págs., R$ 94,90; R$ 39,90 em e-book], da americana Mary Gabriel. Ex-jornalista da agência de notícias Reuters, a autora soube articular com extrema habilidade três ou quatro fios condutores em seu livro.

Primeiro, o lentíssimo processo de maturação do pensamento de Marx e Engels, cujas ideias, projetos e convergências recebem claro e cuidadoso acompanhamento.

Em segundo lugar, Mary Gabriel não economiza páginas na narrativa dos diversos e tumultuados acontecimentos políticos que corriam em paralelo. As revoluções de 1848, em diversos países europeus, a situação da Irlanda, a permanente repressão na Alemanha e na Rússia, o sangrento episódio da Comuna de Paris são apresentados com grande dramaticidade, ganhando especial interesse com os comentários, ao mesmo tempo lúcidos e apaixonados, dos dois pensadores socialistas.

Eles se revelam bem mais moderados e sensatos do que seus rivais contemporâneos, que davam preferência aos atentados e conspirações golpistas. Ainda que Mary Gabriel retrate Marx como dogmático e explosivo, sua aposta na importância dos sindicatos e na ação partidária e parlamentar surge como uma contribuição estratégica decisiva para a história política do Ocidente.

VIDA FAMILIAR

O interesse principal de “Amor e Capital”, contudo, concentra-se na vida familiar de Marx – e no papel, bem menos estudado, de sua mulher e suas filhas na consolidação e divulgação de uma obra que ia sendo escrita aos trancos e barrancos.

Jenny Marx, nascida na alta aristocracia prussiana com o nome de Jenny von Westphalen, teria um irmão como ministro da Justiça do arquirreacionário Frederico Guilherme 4º. O noivado e o casamento de Jenny com Karl Marx constitui-se numa história de amor muito feliz; a vantagem era que o pai de Jenny, apesar de sua alta estirpe, era liberal e simpatizava com aquele talentoso estudante judeu.

O pai de Marx, advogado bem-sucedido na sua cidade, confiava enormemente nele – mas acabou perdendo a paciência. Pronto a gastar o dinheiro que não tinha, amigo do copo e dos charutos, o jovem Marx descuidava dos estudos acadêmicos e ingressaria no jornalismo; seu sucesso foi proporcional ao interesse da censura prussiana, culminando em mandados de prisão.

Décadas de pobreza, sempre amenizadas pela ajuda de Friedrich Engels, filho rebelde de um industrial e, mais tarde, dono de fábrica ele mesmo, iriam impor enormes infelicidades para Karl e Jenny Marx. A morte de filhos pequenos –com a circunstância de não ter dinheiro para pagar a conta do médico depois – iria aos poucos tirar a energia e a graça inata de Jenny.

Das três filhas que sobreviveram, Jennychen, Laura e Eleanor, duas se suicidaram. As três tiveram casamentos infelizes, com políticos medíocres (“ao Diabo que os carregue!”, explodiria Marx) e, no caso de Eleanor, com um verdadeiro escroque.

Há também a conhecida história do filho ilegítimo que Marx teve com a babá das crianças; o grande amigo Engels assumiria a paternidade do garoto. Mary Gabriel procura o quanto daquele segredo familiar chegou aos ouvidos de Jenny (as filhas de Marx só saberiam disso muito mais tarde, quando Engels já estava morrendo), mas os documentos a respeito são pouquíssimos.

VOCÊ SABIA?

Se esse caso é relativamente conhecido, são entretanto variadas as passagens de “Amor e Capital” que poderiam ser incluídas numa lista do gênero “você sabia?”.

A célebre tese de doutorado escrita por Marx sobre Demócrito e Epicuro, por exemplo, foi apresentada à Universidade de Jena. O que poucos provavelmente sabem é que essa universidade, na Alemanha de meados do século 19, era uma verdadeira fábrica de diplomas por correspondência. Marx foi aprovado no prazo de uma semana, sem nunca ter passado por banca examinadora.

Na incessante (e um pouco cansativa ao longo do livro) busca por dinheiro emprestado, Marx terminaria visitando um tio, nada receptivo, em Amsterdã. Tratava-se de Leon Philips – cujos descendentes fundariam a famosa marca de aparelhos eletrônicos.

Falando em eletrônica, o livro mostra que quem se inquieta com a falta de privacidade na internet provavelmente ignora as dimensões da espionagem política no século 19. O ambiente pulula de traidores e agentes internacionais. O célebre compositor de óperas Meyerbeer e o naturalista Alexander von Humboldt não se saem bem desse relato.

A repressão conservadora e a articulação global entre as monarquias se mostra espantosa e implacável – tanto quanto as condições pavorosas dos trabalhadores industriais. Alugavam-se metades de camas nas pensões dos operários; a autora diz, embora seja até difícil de acreditar, que também se pagava por cordas nos quartos, onde os mais miseráveis podiam se pendurar para dormir de pé.

Greves e protestos se tornavam selvagens, degenerando em vandalismo e assassinato; eram invariavelmente reprimidas, não só com espadas e fuzis mas a tiros de canhão. Para sufocar os movimentos democráticos em Viena, em 1848, contava-se com um soldado para cada 17 habitantes.

O termo “ditadura da burguesia”, contra o qual se deveria constituir a “ditadura do proletariado”, não consistia no exagero retórico em que se tornou à medida que o século 20 avançava em direitos coletivos e garantia do voto para todos os cidadãos. Tão desprezado hoje em dia, Marx foi crucial nesse processo; tanto quanto sua visão política, seus sacrifícios pessoais e seu bom humor o tornam, não digo amável, mas novamente admirável ao fim de “Amor e Capital”.

FSP: 27/12/2015.  

Marcelo Coelho. Jornalista.


Imagem: Reprodução (Livro “Amor & Capital – A Saga Familiar De Karl Marx”)

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