Em Destaques, Música

Em meu último artigo nessa coluna* revelei minha perplexidade face à aceitação passiva do conceito de que é o quarteto para cordas o arranjo ideal espontâneo da música camerística a partir do Classicismo. Não que eu discorde do fato concreto, mas simplesmente porque carece a literatura de argumentos teóricos convincentes. Mozart, por exemplo, além do Divertimento para violino, viola e violoncelo KV 563, inegável obra-prima, e dos dois atraentes Duos KV 423 e KV 424 escreveu apenas o juvenil Trio KV 266 para dois violinos e baixo e as chamadas Quatro Prelúdios para Fugas de Bach. E para cinco instrumentos, dobrando a viola do quarteto Clássico, Mozart compôs algumas de suas obras de maior lirismo, como os Quintetos KV 515 e KV 516, além dos exemplos de perfeição formal que são o KV 593 e KV 614. Não obstante, é ainda em seus quartetos que está o pináculo de sua música instrumental. Essa preponderância do quarteto sobre os agrupamentos vizinhos – duos, trios e quintetos – é ainda mais evidente em Haydn e Beethoven. No caso do primeiro, precursor de Mozart sob muitos aspectos, apesar dos cento e vinte e cinco Trios para baryton, viola e cello e trinta outras composições para três instrumentos de cordas, o epicentro inegável de sua obra camerística é constituído pelos Oitenta e quatro Quartetos. Beethoven, após algumas tentativas – seus Sete Trios – nada compôs estritamente para cordas que não fossem os Dezesseis Quartetos e A Grande Fuga. E mesmo Schubert, além de seu único magistral Quinteto para violoncelo dobrado e um Trio, também se concentrou no quarteto.

Não obstante essa dominância do quarteto, os Seis Quintetos de Mozart constituem, em si, um capítulo à parte da música de câmera e nenhuma discoteca será satisfatória sem esse segmento essencial. Tenho sido chamado de saudosista, mas sou obrigado a insistir. As versões mais convincentes dos Quintetos ainda são as do Budapest com Katims como segunda viola e do saudoso Quarteto Griller com Primrose. Comparável entre as versões mais recentes é apenas aquela centrada no Trio Grumiaux. O Quarteto Amadeus nos oferece uma bem cuidada edição mas, como sempre, excessivamente isenta. É, entretanto, possível que outros a prefiram. Nessa linha conceitual, mas ainda mais fria é a versão de Juilliard. O Quarteto Dinamarquês nos oferece uma versão exuberante de alegria e de poesia, sem o equilíbrio formal de um Budapest ou o vigor disciplinado do Griller mas, entretanto, uma opção defensável. Não falta intensidade ao Quarteto Búlgaro mas o sentido de proporções, essencial para a música de Mozart, compromete essa versão. Há muito tempo que não escuto a versão do Fine Arts que se mantém viva há vinte anos e não conheço a do Tátrai que consta dos catálogos europeus e americanos, mas estou convencido de que são dispensáveis apesar dos elogios da crítica europeia a esse último conjunto.

Além desses magníficos Quintetos para cordas, Mozart nos deu um longo Divertimento KV 563 para três instrumentos de cordas cuja concepção é eminentemente camerística. A gravação mais bem-sucedida é a do Trio Grumiaux, apesar da forte concorrência do grupo húngaro Kovács e Németh, Banda. Enquanto esse último é todo espontaneidade e juventude, o primeiro é caracterizado pelo equilíbrio entre intensidade e vigor de um lado e perfeição formal de outro. Stern, Zukerman e Rose nos dão também uma viril interpretação sob todos os aspectos satisfatória. Bastante bem-sucedido é o Trio de Cordas Italiano. Menos aconselhável é o Bel’Arte. Os Duos de Mozart para violino e viola dificilmente poderiam ser considerados, como os trios e quintetos de cordas, derivações naturais da formação básica da música de câmera, o quarteto constituído por dois violinos, viola e violoncelo. Todavia, nada existe na literatura de importância comparável a essas duas peças de Mozart para a mesma combinação de instrumentos. E basta ouvir uma vez uma das duas obras para violino e viola ou então a Sinfonia Concertante para essa mesma dupla, para percebermos a naturalidade da mescla de timbres entre a viola e o violino. É preciso não esquecer que Mozart foi também um dos maiores violinistas e violistas de seu tempo, embora tivesse, em favor do piano, praticamente relegado esses instrumentos para um segundo plano, após a puberdade.

Satisfatória é a versão dos Fuchs dos dois Duos KV 423 e KV 424, mas Grumiaux e Pelliccia estão radiosos. Menos felizes são Kovács e Németh. Apesar da escassez de opções, entretanto, esses dois Duos de Mozart permanecem fundamentais para a música camerística.

*Ver artigo: “Mozart e o grande Tetraekis”: http://bit.ly/1MN9UjM

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 08/04/1984

Mozart

Divertimento K 563, 4,5,6 mov

The Grumiaux Trio

play

https://youtu.be/kvYieBvNvKM


Imagem: Simon Powis / colbertartists.com

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