Em Conjuntura Internacional, Destaques

Na primeira semana de 2016, novos recuos nas bolsas de ações da China e desvalorização continuada do yuan voltaram a criar pânico mundo afora. Ações, commodities, moedas declinaram em cadeia nos mercados globais, revelando mais uma vez o peso da China na economia mundial. Segunda maior economia do globo; 11% do PIB do mundo; 12% do consumo mundial de petróleo e cerca de metade do consumo de aço, alumínio, cobre, níquel e zinco; além de maior parceiro comercial de inúmeros países nos cinco continentes – a China vai-se afirmando na sua centralidade de Império do Meio. Apesar de ainda estar fora de grande parte do sistema financeiro global, a enorme presença comercial da China leva a que seus esforços por transitar de um modelo de crescimento baseado em investimentos e demanda externa para outro, apoiado no consumo doméstico, provoquem dúvidas e tropeços tanto interna quanto externamente. O país tem tido de abandonar importantes motores de crescimento, como a abundância de trabalho barato. No exterior, predomina o medo de que a necessária redução na taxa de crescimento da economia chinesa escape ao controle dos governantes de Pequim, aumentando a instabilidade financeira mundial.

Na Survival de dez. 2015/jan. 2016, Bill Emmott, antigo editor de The Economist, respondeu com clareza a esses receios internacionais: “Depois da forte queda nas ações da bolsa de Xangai, a pergunta que passou a ressoar ao redor do mundo, nos escritórios de negócios, nas salas de imprensa, ministérios de finanças e universidades, é se vamos finalmente assistir ao tão prognosticado colapso da economia chinesa. Mas esta continua a ser uma pergunta errada. A pergunta correta a ser feita com relação ao futuro da China é do domínio da política e diz respeito às políticas lá em implementação. Não tem que ver com mercados financeiros, nem mesmo com o estado geral da economia. Foi a crise acionária que galvanizou a atenção mundial, mas mais importante são as alterações que vêm ocorrendo, há vários anos já, na economia e no sistema financeiro do país. Alterações que continuarão a ocorrer por muitos anos mais. Tem-se nelas uma saga, não um drama concentrado na busca de seu grand finale. Mais significativo do que um desdobramento potencial qualquer, é a direção do movimento; suas consequências políticas e sociais. E os passos que vão importar, tanto dentro como fora da China, serão medidas políticas, não econômicas. As exigências econômicas da situação são bem claras. As exigências políticas não o são. Elas requerem a capacidade de um regime autoritário de levar adiante uma grande transição econômica que afeta os interesses de grupos poderosos.” (PP 221-222)

Desiderato esse que no plano internacional pode ser observado nos esforços da China por se afirmar como alternativa ao Sistema de Bretton Woods, a ordem global montada pelos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial. Pequim tem assumido, por exemplo, funções do FMI, ao acudir países como a Argentina, a Rússia ou a Venezuela em crises financeiras. Tem invadido também a seara do Banco Mundial, ao liderar os BRICS na criação do Novo Banco de Desenvolvimento; ao fundar sozinha o Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura; e ao suplementar tudo isso com o Fundo da Rota da Seda, já ativo até na América Latina.

As vicissitudes da moeda chinesa (o yuan, também chamado renmimbi em documentos internacionais) são típicas das idas e vindas com que avança a transição da China para um novo modelo de crescimento, a taxas necessariamente mais baixas. O plano quinquenal do Partido Comunista da China (PCC), em implementação, pretende que o yuan se torne “livremente negociável e livremente utilizável”, até 2020. O governo trabalha nesse sentido, adotando medidas como a liberalização da taxa de juros sobre depósitos; a abertura do mercado local de compra e venda de yuans para os portadores de Direitos Especiais de Saque do FMI; e o aumento da transparência na divulgação de estatísticas. É a adoção de medidas desse tipo que muitas vezes provoca as reações de pânico nos mercados estrangeiros. The Economist procurou em editorial (3l.01.15) botar racionalidade no assunto “O yuan ainda não é plenamente convertível e não o será por muito tempo ainda, o que limita sua influência. Mas os líderes chineses estão claramente reunindo forças e elaborando estratégias para tornar seu país um banqueiro do mundo (..) Desenvolvimento benéfico para todos, na medida em que a China direcione suas vastas reservas financeiras, imobilizadas há tanto tempo em obrigações do Tesouro americano, para causas mais úteis, como a construção de estradas e portos nos países pobres.” A grande ausência de condições políticas com que a China empresta seu dinheiro provoca críticas dos que acham que isso contribui para a manutenção no poder de governantes corruptos e ditatoriais, ajudando-os a esvaziar as sanções das instituições financeiras internacionais. Mas, continua o semanário: “As evidências sugerem que os objetivos chineses não são tão sinistros. A China não procura deslocar instituições multilaterais estabelecidas. Busca apenas conquistar posições consentâneas com uma economia do tamanho da sua.” O FMI mostrou-se convencido disso, ao aprovar, no último dia de 2015, a inclusão do yuan na cesta de moedas fortes, à frente da libra e do iene. Christine Lagarde aplaudiu essa decisão como “um marco importante na caminhada da China em direção a uma economia mais influenciada por forças de mercado e um reconhecimento do progresso feito pelo país nas reformas de seus sistemas monetário e financeiro.”


Imagem: Hacfeld

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