Em Conjuntura Internacional, Destaques

O Mianmar (antes conhecido como Birmânia; Burma em inglês) é o país que mais bem representa, no Sudeste-Asiático, a rivalidade entre EUA e China na busca por se tornar a força definidora do futuro da região. Parte integrante do subcontinente indiano dominado pela Grã-Bretanha, a Birmânia conquistou a independência em 1948, sob o impulso de Aung San. Ganhou identidade como um dos países menos desenvolvidos da região, notório como grande produtor de arroz, e tendo de equilibrar-se entre as poderosas economias da Índia, da China e do conjunto do Sudeste Asiático. Politicamente, o novel Estado tendeu para este último bloco, vindo a tornar-se o décimo membro da ANSEA (Associação das Nações do SudEste Asiático). Economicamente, porém, a Birmânia, atraiu o intenso interesse da China, que tinha ademais fortes laços de sangue com minorias étnicas, em situação de rebeldia nos lindes sino-birmaneses. Investimentos chineses, juntamente com dezenas de milhares de trabalhadores, desceram para a Birmânia, levantando barragens e abrindo minas e empresas de todo tipo. O país revelou-se de grande importância estratégica para a China, ao proporcionar um acesso direto e curto entre o interior chinês e as rotas do Oceano Índico, essenciais para as trocas comerciais da China com o mundo, em particular para as importações de hidrocarbonetos. Um duplo duto, para petróleo e gás natural, já foi construído, entre o Índico e Kunming, capital da província chinesa do Yunnan, e outros dois grandes projetos foram lançados pelos chineses: uma zona industrial em torno de porto de águas profundas, na altura de Sittwe, na costa birmanesa; também na costa, em Dawei perto da fronteira com a Tailândia, uma refinaria de 3 bilhões de dólares.

Não terei espaço para descrever a evolução política doméstica da Birmânia, nas suas primeiras décadas de independência. No começo dos anos 1990, o poder foi tomado por uma junta militar extremamente autoritária. Foi ela que veio a trocar o nome de Birmânia por Mianmar, e também o da antiga capital, Rangun, por Yangon. Posteriormente, Yangon foi abandonada como capital, em favor de uma nova cidade, mais central, Naypyidaw.  Durante vinte anos a junta militar cooperou com a expansão econômica chinesa, até um grupo de generais nacionalistas começar a inquietar-se com o perigo de ver Mianmar absorvido como província da China. Pesou muito nessa inquietação um gigantesco projeto chinês de construção da barragem de Myitsone, no rio Irrawaddy, na fronteira com a China. Em setembro de 2011, o Presidente em posto, General Thein Sein, anunciou inesperadamente o cancelamento do projeto, com encorajamento, talvez, de serviços de inteligência americanos. O fato foi que a Secretária de Estado Hillary Clinton não tardou a realizar vistosa visita de trabalho a Mianmar, logo seguida por visita do próprio Presidente Barack Obama. Agindo de alto para baixo, o governo Thein Sein começou a institucionalizar a volta à legalidade civil, cooptando a colaboração de Aung San Suu Kyi, filha do herói da independência, e maior figura da luta pela democracia no Mianmar, Prêmio Nobel da Paz. Com as prerrogativas dos militares bem seguras, Thein Sein convocou eleições suplementares para um grupo de 45 cadeiras no Parlamento. O partido de Suu Kyi levantou 42 delas.

Consagrada como membro do Legislativo, Suu Kyi tornou-se peça fundamental da abertura política do Mianmar, em estreita cooperação com Thein Sein e graças ao respaldo ostensivo de Washington. Tanto ela como Thein Sein fizeram expressivas visitas aos EUA, e é em função dela que EUA e UE têm abolido sanções antes impostas à junta militar, inclusive o acesso a armamento moderno.
Em princípios de 2016, a dupla Thein Sein-Suu Kyi organizou as primeiras eleições parlamentares livres do Mianmar, desde os anos 1960. O partido de Suu Kyi, a Liga Nacional pela Democracia (LND), impôs-se maciçamente e o general abandonou a vida pública, recolhendo-se a um mosteiro budista. Em fins de março tomou posse o governo da LND, com Suu Kyi como a principal figura. Todavia, ela não tem podido assumir a presidência do país, posto constitucionalmente barrado a birmaneses naturalizados ou casados com estrangeiro. É este o caso de Suu Kyi, que viveu na Inglaterra e casou-se com um inglês. O posto de presidente está sendo ocupado por Htin Kyaw.

  O primeiro estrangeiro de nomeada a visitar Naypyidaw, depois da instalação do novo regime, foi o Ministro do Exterior da China, Wang Yi. A China continua a ser o maior investidor estrangeiro no Mianmar, e promessas de amizade e renovada cooperação foram trocadas com o visitante. Resta em suspenso verificar o comportamento futuro de Suu Kyi com relação à China. O primeiro teste será sua decisão de prosseguir ou não com o projeto da refinaria de Dawei, assinado por Thein Sein no último dia de sua presidência. A grande novidade é a entrada em cena do Japão, que chega como o real concorrente dos investimentos chineses. Há registro de que a própria Suu Kyi procurou o Embaixador do Japão em 2013, a fim de pedir a ajuda nipônica para o levantamento da economia rural no Mianmar. O Primeiro Ministro Abe visitou Naypyidaw, em 2013, para conversas com Thein Sein e Suu Kyi, e capitais nipônicos começaram a invadir Mianmar. Não terei espaço para desenvolver o assunto. Remeto o leitor interessado a um artigo de Patrick Strefford: Japan’s Bounty in Myanmar, aparecido no Nº 3, de 2016, da Asian Survey, revista da Universidade da Califórnia.


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