Em Conjuntura Internacional, Destaques

[O fuzilamento de que trata o presente artigo, do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira condenado à morte por tráfico de cocaína foi consumado neste sábado 17/01 nos termos ditados pela Justiça indonésia]

Por Paulo Nogueira

O brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, de 53 anos, de alguma forma vai morrer por culpa dos crimes do Império Britânico num passado já remoto.

Segundo informações do governo da Indonésia, ele vai enfrentar um pelotão de fuzilamento no próximo sábado.

Moreira foi condenado à morte em 2004, depois de ter sido apanhado com 13,4 quilos de cocaína ao tentar entrar na Indonésia. A droga estava escondida no interior de uma asa delta.

A título de curiosidade, aquilo é uma migalha diante da meia tonelada de pasta de cocaína descoberta no helicóptero dos Perrelas, mas isto é outra história.

A Indonésia tem as penas mais duras para tráfico de drogas do mundo, e não é à toa.

É efeito das Guerras do Ópio, e aí é que entram os britânicos na história do brasileiro prestes a ser fuzilado.

As Guerras do Ópio, ambas no século 19, são talvez o capítulo mais vergonhoso do imperialismo britânico.

A Inglaterra importava três produtos chineses em grande quantidade: seda, chá e porcelana. Os ingleses tinham um brutal déficit comercial com a China.

O que fazer?

A Inglaterra vivia a Revolução Industrial, e entendeu que poderia vender aos chineses uma série de quinquilharias. Um navio inglês, comandado por um certo Lorde MacCartney, foi mandado para a China com os produtos destinados a equilibrar a balança comercial dos dois países.

O problema é que os chineses não se interessaram por nada.

Foi quando entrou em cena o ópio. A Inglaterra, berço da civilização, começou a contrabandear para a China o ópio que produzia na Índia.

Foi um horror para a sociedade chinesa. São célebres as imagens de casas de ópio na China, em que as pessoas se consumiam num estado de letargia e alienação.

Num certo momento, o governo chinês impôs leis duras para o contrabando de ópio. Antes, o imperador mandou uma carta à Rainha Vitória na qual ponderava que era injusto o que a Inglaterra fazia.

Da China, recebia porcelana, chá e seda. Em troca, cobria os chineses de ópio, proibido na Inglaterra.

A rainha, se leu a carta, não se manifestou.

Diante das dificuldades que surgiram para o contrabando, a Inglaterra decidiu fazer uma guerra, em meados dos anos 1 800.

O pretexto era que a China estava ferindo os princípios do livre comércio.

A China não teve como enfrentar as forças inglesas, adestradas nas guerras napoleônicas.

Batidos, os chineses não tiveram o que fazer. Armaram, depois, uma resistência, e as coisas apenas pioraram.

Veio a Segunda Guerra do Ópio, na qual a Inglaterra praticamente destruiu a China. Tomou territórios como Hong Kong e, suprema bofetada, colocou no comando da alfândega chinesa um inglês.

É simplesmente extraordinário que a China, devastada, tenha conseguido se reconstruir e ser o que é hoje.

Os estudiosos atribuem esse milagre ao confucionismo, a cultura de alto conteúdo de sabedoria prática que domina a China.

A única vitória – não pequena, aliás – da China foi ter conseguido dar o nome de Guerras do Ópio aos horrores praticados pelos britânicos em nome do livre comércio.

Perpetuou-se, assim, a vergonha.

Países ao redor da China, como a Indonésia, foram duramente afetados pelas Guerras do Ópio. A Indonésia, no sudeste Asiático, era um dos portos de passagem para os navios ingleses abarrotados de ópio.

Como efeito colateral disso, a população nativa sofreu pesadamente os efeitos da droga. Os indonésios passaram a consumir ópio copiosamente.

As guerras passaram, mas o trauma ficou.

Na China, o tráfico de drogas é reprimido com penas severas. Na Indonésia, elas são ainda mais duras.

É dentro desse quadro que o brasileiro apanhado com cocaína está prestes a ser fuzilado.

Ele não poderia ter escolhido um lugar pior para contrabandear sua cocaína.

Na raiz das balas que deverão abatê-lo nos próximos dias, está o terror que o império britânico promoveu na Ásia no século XIX.

Publicado no DCM: http://bit.ly/1BIGaNd

Paulo Nogueira. Jornalista é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.


Créditos de imagem: doublebarrelledtravel.files.wordpress.com

Facebooktwittergoogle_plus