Em Cotidiano, Destaques

«Quando é importunada com perguntas, a recordação assemelha-se a uma cebola, que quer ser descascada, para que possa vir à luz aquilo que é legível, letra a letra: raramente de forma unívoca, muitas vezes como escrita em espelho. A cebola tem muitas camadas. Mal é descascada, renova-se. Cortada, provoca lágrimas. Só ao descascá-la fala a verdade. O que aconteceu antes e depois do fim da minha infância, bate à porta com fatos e decorreu pior do que o desejado, quer ser contado às vezes assim, outras de maneira diferente e desencaminha para histórias de mentira.» Gunter Grass

Dono de uma literatura robusta e reconhecida mundialmente, o que lhe rendeu em 1999 o Prêmio Nobel de Literatura, Günter Grass, tem uma trajetória pessoal e literária que se confunde com os anos nos quais foi protagonista como pessoa e profissional das letras.

Desde O Tambor (1956), o primeiro livro de uma trilogia completada com O Gato e o Rato (1961) e Anos de Cão (1963) revelou-se um escritor crítico e irrequieto, cujas marcas salientes são a exuberância, precisão, a fantasia e a ironia. Em livros posteriores – Anestesia Local (1969) e O Diário de um Caracol (1972) – retrata de maneira romanceada sua experiência politica na Alemanha de Willy Brandt e do partido no poder, o SPD.

Ao tempo em que com respeito e reverência guardamos o luto pelo seu falecimento no dia 13 de abril deste ano, não podemos deixar de lembrar dois momentos emblemáticos da sua biografia recente.

O primeiro relacionado com os relatos-confissão da sua militância na Juventude Hitlerista, desde os 11 anos de idade, e, posteriormente, nas temíveis Waffen SS, um corpo especial de elite para proteger o Führer Adolf Hitler, retratados no romance autocrítico, lançado em 2006, Descascando a CebolaAutobiografia 1939-1959. São palavras suas a esse respeito:

«Não sabia nada dos crimes de guerra que mais tarde vieram à luz, mas a afirmação da minha ignorância não pode ocultar a consciência de haver estado integrado num sistema que planificou, organizou e executou o extermínio de milhões de pessoas.»

O segundo tem a ver com a repercussão do seu poema publicado em 2012 na imprensa alemã denunciando Israel de representar uma “ameaça à paz mundial”, o que foi recebido com regozijo por todas as pessoas amantes da paz no mundo inteiro, mas que em contrapartida encheu de cólera o regime sionista que, como retaliação, declarou Gunter Grass persona non grata.

Gunter Grass parte deixando-nos um legado de obras literárias gigantescas e um exemplo de vida adulta e madura brilhante de militante das causas mais nobres por um mundo melhor, sem guerras (exemplo disso foi a sua luta contra a invasão e ocupação anglo-norte-americana do Iraque e o genocídio sistemático praticado por Israel contra os palestinos), sem exploração do homem pelo homem, pelo equilíbrio ambiental e pela paz e o progresso da humanidade que foi ao que se dedicou plenamente desde o pós-guerra até o seu último suspiro.


Créditos de imagem: abc.es

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