Em Análises e Reflexões, Destaques

Por Gustavo Gindre

Esse post começou a nascer numa recente conversa quando estive em Curitiba, semana passada, em um seminário de imprensa sindical. E ganhou corpo agora com a escalada da crise entre Rússia e Estados Unidos.

Tenho lido muitas coisas de política internacional com um viés progressista ou mesmo assumidamente de esquerda. Há muita informação relevante. Mas gosto pouco do que leio, especialmente daquilo que circula exclusivamente na Internet.

É tudo muito adjetivado!!! E, embora eu saiba que neutralidade é uma falácia, por outro lado é ruim ler um texto que parece escrito por um torcedor de futebol sobre seu clube do coração.

As análises partem do pressuposto de que existe um lado bom e outro ruim, que obviamente devemos torcer pelo lado bom e que, como todos sabemos, o lado bom irá triunfar. As vezes tenho a sensação de estar lendo o roteiro de Guerra nas Estrelas.

Então, embora haja uma boa quantidade de fatos relevantes, a teleologia embutida (o lado bom está às vésperas de triunfar) estraga com tudo.

E o que mais me assusta é que uma parte da esquerda vibra com isso. Parece uma forma de aquietar os corações.

É raro encontrar um jornalismo com viés progressista e praticado com a qualidade de um Robert Fisk ou um Patrick Cockburn. E aí a diferença me parece claramente explicável. Ao invés de militantes que colocam o jornalismo a serviço de sua militância, eles são jornalistas com uma compreensão progressista da realidade. A diferença entre o militante travestido de jornalista e o jornalista é gigantesca.

Já a direita, em suas publicações especializadas, tende a fazer melhor, porque precisa dos fatos (e não da torcida) para orientar sua ação política. É a diferença entre quem tem a hegemonia e quem acha que vai conquistá-la fazendo agitação e propaganda.

Infelizmente, a Internet é um prato cheio para esse tipo de torcida de futebol.

Do Facebook do Autor []:18/10/2016.

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Gustavo Gindre. Jornalista. É professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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