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Existem casos na História recente, tanto das ciências humanas quanto das exatas, de plágios e falsificações de dados. Mas tais acontecimentos são raros, talvez porque os riscos sejam enormes e a execração pública inevitável. Por isso não recomendamos essas formas grosseiras de trapaça. No que segue exporemos “à vol d’oisseau”, várias fórmulas sutis e toleradas, portanto, altamente recomendáveis, principalmente em um país ainda em processo de evolução cultural, como é o Brasil.

Lição primeira – Quando por influência de Universidades anglo-saxônicas, em meados do século XX, estabeleceu-se o princípio do “publish or perish” (publicar ou perecer), inúmeros departamentos de Universidades brasileiras criaram suas revistas, em que os membros do departamento e amiguinhos publicariam seus medíocres artigos. Confesso que houve algumas poucas e desagradáveis exceções de revistas editadas por Universidades, que alcançaram padrões de qualidade elevados. Todavia, a proliferação universal de revistas de nível questionável foi tal que o número de artigos publicados passou a ser questionável como indicativo de qualidade. Cito um caso. Há cerca de sete ou oito anos examinei vários currículos de cientistas brasileiros. Um deles apresentava 400 publicações, ou seja, cerca de um trabalho por semana. Todavia, o que impressionava era o baixo número de citações, que era menor que o número de publicações. Pois bem, a partir de determinada época reconheceu-se que o número de trabalhos publicados é irrelevante e o que conta é o número de citações a uma comunicação, o que em certa medida representa o grau de inserção no corpo da ciência, dos resultados contidos na referida publicação.

Segunda lição – Perdeu-se assim, infelizmente, uma forma simples e direta de falcatrua sofisticada. A imaginação criativa, todavia, do cientista malandro é infinita. Se o que conta é citação, então vamos encontrar meios de amplia-la. Surgiu, inicialmente, como uma manifestação de gentileza. “Você me cita que eu te cito”. São Francisco legítimo. Houve mesmo quem, baseado neste princípio, promovesse a própria candidatura a Prêmio Nobel. Todavia, enquanto estava no nível de pesquisadores ou de grupos, a benevolente safadeza era tolerada, embora plenamente reconhecida, até que uma meia dúzia de umas três ou quatro revistas brasileiras firmou um “acordo de cavalheiros” para citarem-se mutuamente e uma intrometida organização internacional identificou a maracutaia e denunciou solertemente as simpáticas revistas transgressoras e seus obviamente inocentes dirigentes.

Terceira lição – Há, entretanto, uma prática ainda mais sutil para aumentar o número de citações do que o método da citação recíproca descrita na lição segunda. É notável que este inovador e eficiente método de falcatrua sistematizado tenha sido inspirado em casos legítimos. Artigos sobre genomas são caracterizados assim como aqueles sobre estudos de partículas elementares, por um grande número de pesquisadores, aos quais são atribuídos segmentos específicos dos dados a serem analisados. Pois bem, o método maravilhoso, inspirado nos casos acima mencionados, consiste simplesmente em compartilhar a autoria de cada publicação. Em um laboratório, suponhamos com 20 ou 30 grupos, em vez de atribuir a autoria aos três ou quatro pesquisadores que realmente foram imprescindíveis para a realização de uma certa pesquisa, o pesquisador principal “generosamente” inclui contribuições incidentais de outros grupos e se houver reciprocidade, todos vão ganhar com o número de citações multiplicado.

Analisando um currículo vitae de pesquisador com cerca de três mil citações, calculei que o número médio de citações por artigo por autor é de apenas 3,5. No caso do pesquisador mencionado em nossa primeira lição, essa média seria de 0,1 citações por artigo por autor. Pois bem, o perigo é de que esta atitude moralista revisionista dos cientistas quadrados acabe por desmontar esta confortável recém conquistada perversão e comece a adotar este fatídico índice de citações por artigo e por autor. Ah esses malditos desmancha-prazeres!

Créditos de imagem: cienciabrasil.blogspot.com

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