Em Destaques, Música

Recomendaram-me alguns intelectuais uma coletânea de músicas antigas, folclóricas e cerimoniais, puramente instrumentais, contida em seis cassetes e publicadas pela Imprensa de Turismo e Viagens da China, uma organização estatal. Exultei. Teriam enfim os musicólogos atuais conseguido recompor a música chinesa da dinastia Tang, um velho sonho dos especialistas ocidentais? Ou pelo menos dos Sung? Também seria interessante uma coletânea da música do começo da época de Ming. Mas, nada disso. Nem sequer uma autêntica decadente música dos Ching. Apenas uma coletânea, muito bem gravada é verdade, de peças aparentemente compostas já nesse século, perversamente ocidentalizadas e versões modernizadas de obras do Ching tardio.

Mais parece um esforço da estatal chinesa para oferecer ao turista e ao estrangeiro uma amostragem especialmente acessível. Certamente não por razões de ordem comercial, mas antes como uma demonstração concreta dessa ânsia de aproximação com o Ocidente que se percebe em toda a China.
Não me arrependo de ter adquirido esses seis cassetes. É música amável cheia de graça e humor. E merece um espaço em qualquer discoteca. Mas nada revela sobre a rica cultura chinesa, ou pouco. O colorido dos instrumentos musicais chineses é inteligentemente explorado e bastaria essa qualidade para justificar a coletânea. Mas fica a China devendo uma verdadeira restauração de sua música antiga, o que não apresentaria as mesmas dificuldades do que a música ocidental, devido aos elaborados sistemas de notação chineses.

Portanto, se o leitor topar em algum lugar do mundo com essa coletânea, que não hesite. Pois se deliciará com a variedade de timbres dos instrumentos chineses e com a expressiva melodia que é o apanágio da música daquele país. Não deixe, entretanto, de comprar também algumas óperas, não apenas de Pequim (Beijing), mas de qualquer outra província. Existem dezenas delas gravadas. No começo o ouvinte ocidental estranhará o artificial falsete usado pelos cantores masculinos e a expressão altamente deformada da voz feminina, heranças da dinastia Ming, quando os músicos se dividiram em grupos masculinos e femininos. E embora as óperas em praticamente todas as províncias tenham reagrupado, a partir do fim do período Ching, homens e mulheres, as deformações afetadas permaneceram. Aparentemente, tendo os cantores masculinos invadido os registros naturais femininos, foram as cantoras obrigadas a ocupar um novo espaço, subtraído em parte dos instrumentos de cordas.

Talvez a melhor atitude seria interpretar a voz humana em uma ópera chinesa com um outro instrumento, diverso daquele que reconhecemos como a voz humana natural.
As gravações existentes de óperas chinesas não mostram nenhuma preocupação com o gosto ocidental e será, portanto, encontrado um atraente clima de autenticidade. É preciso lembrar que a ópera tem na China um papel altamente preponderante como espetáculo popular. Ocupa uma função semelhante àquela que teve na Europa a opereta no começo de nosso século. Um pouco mais rica e diferenciada é a Ópera de Pequim. Poderia ser comparada à Grande Ópera, em Milão ou Roma.

Também na China a ópera é um fenômeno dos séculos XIX e XX. Mas alguns elementos tradicionais da música chinesa foram aí melhor preservados, tais como o sistema cíclico puro pentatônico, enquanto na música popular corrente a influência do sistema harmônico é imediatamente perceptível. Como ocorre na prática essa hibridização eu não sei, pois em princípio seria impossível. Mas de tudo que vi e ouvi e que é imediatamente acessível ainda é a ópera a forma que mantém um mínimo de autenticidade e certamente representa o que há de mais atraente do ponto de vista estético na música chinesa gravada.

Infelizmente, as gravações encontráveis, todas em cassete (adquiri umas vinte), são de qualidade uniformemente ruim, principalmente aquelas feitas em concerto. Todavia, volto a afirmar, são imprescindíveis. Esperamos apenas que o governo chinês, que em outros campos da arte vem fazendo um louvável trabalho de restauração, desperte também para a autêntica música chinesa.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 06/09/1987.

China Opera Music 1976-1990

Part 1

A banquet in the fraternity hall

By Qi Xiaoyun

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