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Segmentada em três capítulos, a trama do recente romance de Bernardo Carvalho – ‘Reprodução’ – desenvolve-se numa tarde de terça-feira deste século.

O cenário é um aeroporto e o protagonista – desempregado, divorciado, medíocre estudante de chinês – quer embarcar para a China, mas é impedido por policiais que suspeitam que ele teria se associado à máfia chinesa ligada ao tráfico de drogas.

No primeiro capítulo (‘A língua do futuro’) o próprio protagonista é o narrador e responde ao interrogatório policial. Kafkanianamente,  é acusado de crime não cometido; mas  é sob pressão do insólito que ele revela-se ao leitor: um emblemático (e problemático…) ser dos tempos contemporâneos.

Um sumário do ‘pensamento’ do protagonista, neste decálogo que selecionei:

* ‘Na Arábia Saudita, ladrão é amputado; aqui, é deputado’.
* ‘Brasileiro é burro’. / * ‘Não dá prá conversar com brasileiro […]. Puta povo ignorante’.

* ‘Preferia nascer morto ou aleijado a nascer gay! Até nascia preto se precisasse, mas gay?!?’

* ‘Aposentado é um estorvo para a sociedade’.

* A Humanidade? ‘Somos uma epidemia infestando o planeta, um surto’.

* ‘Por que ninguém acha que o mundo foi criado pelo demônio?’

* ‘A democracia está condenada a degringolar em fascismo e religião’.

* Os sionistas ‘controlam o tráfico de entorpecentes’.

* ‘O senhor acha que não leio jornal? Que não participo de manifestação contra essa merda toda?’. / ‘Eu sempre escrevo para a seção de cartas do leitor. Eu também tenho um blog. Estou no Face(book). Tenho muita opinião. E seguidores. […] Tenho milhares de amigos e seguidores’.

* ‘Ser humano não existe na China’. /  * ‘Chinês não tem respeito pelo ser humano. […] Chinês nasceu para explorar os outros’.

Este protagonista boçal acredita que a China tem a chave do futuro. É por temer o hardpower do ‘imperialismo chinês’ que o personagem decidiu estudar a língua do seu futuro Senhor, calculando obter vantagem comparativa quando os chineses chegarem para dominar o Brasil e o mundo…

‘Reprodução’ [edição da Companhia das Letras, 2013] retrata a confusa cabeça de seres desta época, que seguem em suas existências – aos solavancos – “em ritmo de barbárie”. Para onde?

Reproducao-Bernardo-Carvalho

Crédito de imagem: www.azulmagazine.com.br, commons.wikimedia.org

 

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