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David Pepin é um bem sucedido desenvolvedor de jogos de computador, casado há 13 anos com Alice, professora de escola para alunos desajustados, que luta obstinadamente contra o peso.  Os 130 quilos da esposa não desagradam David. Mas as dietas sucessivas, o silêncio e a infelicidade profunda em que ela se recolheu depois de vários abortos, levam-no a fantasiar a morte da esposa.  Alice ingere um punhado de amendoins e morre vítima de choque anafilático. David afirma que foi suicídio – ela era sabidamente alérgica a amendoins –, mas a polícia suspeita de assassinato.

Mr. Peanuts, o primeiro romance de Adam Ross, publicado no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras, vasculha a vida de um casal enredado pelo afeto num cenário inescapável, como o da gravura Relatividade de Escher, e aprisionado num relacionamento com topografia semelhante ao da fita de Möbius – duas referências que aparecem logo nas primeiras páginas do livro. A linguagem amorosa de um é cada vez menos compreendida pelo o outro, mas não desistem de tentar e começar tudo de novo.

Ross radicaliza a desesperança no casamento. Ao drama de David e Alice sobrepõem-se as tragédias amorosas dos dois detetives que investigam o caso. O primeiro, Ward Hastroll, é marido de Hannah que, depressiva, não sai da cama há cinco meses. O segundo detetive é o próprio Sam Sheppard – personagem real da série e do filme O Fugitivo – que, acusado pela morte da mulher, foi absolvido no segundo julgamento e abandonou a medicina para se tornar investigador.

Em resenha publicada no New York Times*, Scott Turrow enxerga no nome de Hastroll um anagrama de Lars Thorwald, o vilão de  Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock.  A referência a Hitchcock, aliás, ganha sentido de desígnio ao longo do livro – David e Alice conheceram-se exatamente num curso de cinema sobre a obra do diretor – e induz ao clima de suspense que permeia a trama.

David – assim como Hastroll e Sheppard  – é um marido dedicado, contemplado com o amor no casamento, mas que, no confronto com  monstros “echerianos”, pode se transformar.  A consciência luta entre buscar meios e modos de preservar o casamento ou destruir, literalmente, a parceira. Em uma das cenas mais perturbadoras do livro, David conhece Nathan Harold, especialista em assistência a vítimas de acidentes aéreos da United Airlines, logo depois do primeiro aborto de Alice. Harold é uma espécie de herói salvador e avatar do bom marido, com respostas corretas para todas as suas perguntas.  Mas, quando Alice sai de casa, sem informar o destino, David tem que lidar com Mobius (grafado sem o trema), detetive particular que ele encontrou no Google, avatar de um assassino.

O confronto entre o bem e o mal, num cenário escheriano, ludibria David e, ao longo do livro, também faz com que o leitor muitas vezes confunda ficção e realidade.

*http://www.nytimes.com/2010/06/27/books/review/Turow-t.html?pagewanted=all&_r=0

 

Créditos de imagem: livrosabertos.com.br

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