Em Ciência e Educação, Destaques

Um dos mais impressionantes relatos da proeminência de uns sobre outros pode ser encontrada no conto de Henry James indicado no título. Nele a absoluta obsessão pelo controle e sobrevalência de um sobre outro é alimentada pela aguda diferença entre os personagens e chega a extremos apenas admitidos pela desolação e tédio.

Os BRICS, países em fases diversas de desenvolvimento e com histórias nacionais tão distintas quanto as definições de cultura possam admitir, passaram a ser adotados, pela comunidade das nações, como um grupo.  Tão difícil quanto estabelecer padrões de identidade, comparação ou expectativa de futuro entre a China e a África do Sul ou entre o Brasil e a Rússia, é admiti-los como um conjunto de países com desafios comuns.

O desenvolvimento da educação superior nesses países é um bom exemplo da dificuldade de estabelecer comparações.

Em junho passado foi divulgado o ranking de qualidade das instituições de educação superior dos BRICS, organizado pela consultoria britânica Quacquarelli Symonds (QS), especializada em ensino superior. A Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) são as únicas instituições brasileiras entre as dez melhores. A USP ficou com a 7ª colocação e a Unicamp, com a 9ª. O destaque foi a China que tem seis universidades entre as dez melhores. A Universidade de Tsinghua e a Universidade de Pequim ficaram em 1º e 2º lugares na lista, respectivamente. O ranking leva em consideração a qualidade de pesquisa, ensino, empregabilidade e inserção global das instituições e mede indicadores como quantidade de alunos por professor, citações em artigos científicos, número de docentes e alunos estrangeiros e reputação no mercado.

Se considerarmos as 50 melhores universidades do ranking a China vem em primeiro lugar com 23 instituições, seguida pelo Brasil com nove, a Rússia e a Índia com sete e a África do Sul com quatro. Esse dado não colabora muito como fator de identidade grupal.

Quando adicionamos a esse desempenho dados mais gerais sobre o investimento desses países em educação, encontramos o seguinte: a África do Sul investe 5.4% de seu PIB, o Brasil 4,0%, a Rússia 3,9%, a China 3,3% e a Índia 3,1%. Em valores financeiros isso representa que a China investe 372 bilhões de dólares, a Índia U$139 bilhões, o Brasil U$ 82 bilhões, a Rússia U$ 40 bilhões, a África do Sul 30 bilhões de dólares.  Esses valores podem nos informar um pouco mais, se não das identidades, ao menos das diferenças.

Em seu gasto a China acrescentou política pública, tendo como horizonte o ano de 2020. Fez dobrar suas instituições de educação superior alcançando 2.409 estabelecimentos, impôs um ritmo de crescimento das matrículas de 46% ao ano na última década e, ainda, mira 195 milhões de formandos em 2020, contra 120 milhões projetados pelos EUA.

O Programa de Educação Superior da China, de 2010, articulado com um conjunto de outras políticas, visava a criação de um conjunto de Universidade de nível mundial. Em menos de quatro anos pelo menos seis de suas universidades ocupam lugar de destaque em rankings internacionais de qualidade.

Além dos números, as políticas incluem a participação direta de empresários e empresas chinesas, como a Geely que adquiriu a Volvo, na construção de novas instituições, no incremento e criação de campus e programas universitários de formação e pesquisa, especialmente focados em inovação e no estudo dos mercados internacionais. A ideia que já é reconhecida em mais de 10 instituiçòes é de criar um programa de inovação em larga escala. Essas ações acabaram por construir ou incentivar um padrão cultural que cada vez mais associa status social com a competitividade global.

No caso da Rússia os índices demonstram uma inclusão entre as maiores do mundo. 54% da população de 22 a 65 anos possuem nível superior. A China pretende chegar a 75% em 2020.

Além disso, a Rússia possui um dos mais agressivos programas de abertura e inserção de estudantes estrangeiros, mantendo universidades e centros prestigiosos de pesquisa.

No caso brasileiro, com mais de sete milhões de matriculas distribuídas em 2.416 instituições de educação superior, alcançamos 17% de jovens na faixo de 18 a 24 anos de idade no Ensino Superior, incluindo os que já o concluíram. Perdemos de países que não foram identificados nos BRICS como Bolívia: 21%, Venezuela: 26% , Argentina: 40%  e Chile: 27%. Na América Latina o Brasil só supera o Haiti em inclusão da população em educação superior. Sessenta e seis por cento dos municípios brasileiros algo como 3.622 não encontram nenhum tipo de oferta de educação superior.

São números que representam desafios diversos e de conteúdos distintos. O Brasil vem construindo os seus. Conhecendo seus problemas, avaliando a educação na perspectiva do crescimento do país, internacionalizando professores e estudantes, melhorando a qualidade das instituições e buscando cada vez mais inserção da educação nos desafios da competitividade econômica,  da inovação tecnológica e das políticas sociais, como a saúde. Adota um ritmo e parte de uma história própria.

Nossa convivência como um BRICS, a exemplo do conto de Henry James, dependerá mais das transformações de nossas próprias convicções, determinadas pela nossa trajetória, do que com a identidade de futuros amigos.

 

Créditos de imagem: iberorusa.com

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