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Meu amigo e antigo professor de xadrez se consagra a uma única devoção: Bach. Para ele nada existe senão Bach. Imaginemos apenas se o criador tivesse omitido todos os ribeirões (sem trocadilhos), cascatas e pequenas quedas, em benefício dos grandes rios e das grandes cataratas. Um universo de São Franciscos, de Paranás, de Amazonas, de Iguaçus e de Sete Quedas. Quem suportaria uma paisagem assim monótona de imensidões? O que seria das montanhas sem seus riachos e corredeiras? O que faríamos sem o viço e o frescor jovem de Vinícius, sem as imagens e a melodia de Cecília, sem a ebulição desconexa de Gullar? Imaginem apenas um céu de luas e sóis, sem lugar para as estrelas. E perderíamos aquele céu negro, em que milhares de estrelas tímidas se aventuram e brilham esplendidamente, desimpedidas da concorrência desleal que lhes impõe implacavelmente a lua. É preciso, entretanto, não esquecer, para realmente entender tudo o que o céu nos oferece, que cada estrela é única e que só tem sentido em seu lugar devido, contracenando com suas irmãs.

Fauré é uma dessas estrelas singulares no firmamento da música. Seu brilho é pequeno, mas absolutamente pessoal. Não irá competir com a lua, mas por outro lado, também não é, por certo, substituível por outra luz qualquer. E se o leitor discorda, que um dia se debruce um pouco sobre a música de câmera ou sobre as canções desse pequeno grande artista.

Que fique claro, todavia, que há um seleto séquito de admiradores de Fauré, que discordariam veementemente de minha defesa de sua música. Talvez porque tivessem ficado ofuscados, senão pela intensidade, mas pela particular tonalidade da luz que dele emana. Para eles, Fauré é, pelo menos, tão grande quanto Brahms ou Schubert. E não podemos deixar de nos alegrar com o fato de que haja quem prefira Gullar a Drummond, Fauré a Bach, pois não seria muito mais que um equívoco afável.

A arte de Fauré já foi comparada àquela de Corot. E certamente há uma semelhança entre os dois artistas, embora bastante distinta do que aquela frequentemente invocada. Ambos, em suas obras monumentais, se deixaram enganar por uma retórica grandiloquente, que lhes era adversa. Há uma estranha imobilidade nas grandes paisagens de Corot, tanto quanto nas obras sinfônicas e corais de Fauré. Ambos, em seu Impressionismo primitivo, oferecem uma ponte segura entre o academicismo retrógrado do início do século XIX e a explosão revolucionária de Renoir e de Debussy. É só lembrar a defesa feita por Corot do esboço como parte integrante da obra de arte e o apego de Fauré às modelações inesperadas e tentativas. E mesmo aquela decantada transcendentalidade em um e outro artista não passa de um equívoco. O que os torna imortais é justamente a sinceridade de suas obras menos pretenciosas. Que fique claro, entretanto, que não há nesses autores qualquer indício de ingenuidade, mas apenas uma justa medida, em suas respectivas avaliações de seus próprios talentos e limitações.

A obra mais conhecida de Fauré é talvez o seu Requiem e durante muito tempo foi praticamente aquela que sustentou a presença da música do compositor francês fora de seu próprio país. Hoje, entretanto, parece que está em moda, entre críticos de música, reduzir a importância dessa obra. De fato, existe uma ponta de dramatismo postiço nesse discurso fúnebre, evidentemente pagão. Permanece, entretanto, como obra de grande expressividade. Dentre as gravações antológicas estão aquelas de sua discípula Nadia Boulanger, um pouco cartesiana demais para meu gosto, e a de Jean Fournet, no justo equilíbrio da sensibilidade francesa. Prefiro, entretanto, a visão um pouco mais descontraída e espontânea de Cluytens. Dentre as versões mais modernas, insisto naquelas de Willcocks e de Barenboim, pelo balanço entre lirismo e expressão dramática. Para os emotivos, a versão de Corboz, um pouco romântica demais, deve ser adequada.

Aqueles que encontrarem em Fauré um pouco mais que a média, talvez queiram se estender em sua música orquestral. A Balada e a Fantasia, ambas para piano e orquestra, encontram em Hubeau e Jordan, Heidsieck e Benzi, Johannesen e Froment, Long e Cluytens, Casadesus e Bernstein, nessa ordem, interpretações adequadas. Todavia, a melhor escolha é aquela da obra completa (ou quase) para orquestra, em três discos, com a Orquestra do Capitólio de Toulouse, sob a direção de Plasson, editada recentemente.

Pénélope, única ópera, foi lançada somente em 1980 com o competente Dutoit e a Monte-Carlo. Recomendável somente para os verdadeiros cativos da muito particular sedução de Fauré. É, não obstante, na música de câmera que esse especial talento do recatado artista se exprime melhor e, como Franck, seu admirado contemporâneo, é nesse segmento de sua obra que é bem-sucedido. Não deve, entretanto, o melômano dedicado, esperar em Fauré aquela elaboração estrutural extrema que caracteriza a música de Franck. Mas, se o leitor é capaz de se satisfazer com as mais singulares finesses harmônicas, inesperadas modulações, arpejos insólitos, cadências incongruentes e uma plêiade de artifícios elegantes, não deixe de adquirir suas principais peças de câmera, a começar por esse expressivo Quarteto para piano Op. 15, e seu congênere do Op. 45. Em realidade, existe uma cativante edição da obra completa de música de câmera de Fauré com Collard, Dumay, Pasquier, Lodéon, em seis discos. Além dessas duas peças, devem ser adquiridos, sem hesitação, o Quarteto para cordas, os dois Quintetos para piano. As duas Sonatas para violino e piano, as Sonatas para violoncelo nº 1 e nº 2, também acompanhadas por piano e o Trio para piano. Tortelier ao violoncelo é um exímio intérprete de Fauré, tanto quanto Amoyal ao violino, mas não podemos esquecer Lodéon e Grumiaux, nesses dois instrumentos, respectivamente.

A música para piano de Fauré também merece nossa atenção, inclusive aquela a quatro mãos. Não há nada mais emocionante do que o amor de um adolescente ou de um octogenário. Magdalena Tagliaferro gravou em parceria com o seu protegido, o jovem Varsano, em disco já lançado no Brasil, um pouco do que há de melhor do piano a duas e a quatro mãos de Fauré. Escute apenas, e se não sentir a brisa da juventude nessa brilhante interpretação, a culpa será sua e não de Magdalena. Outros intérpretes de Fauré ao piano são Heidsieck, Collard, Lefébure e Perlemuter. Dentre os intérpretes de Canções (melodias) do mestre francês, aponto Kruysen e Maurane. Inexplicavelmente, a versão em cinco discos do grande Souzay e Ameling não está à altura de seus competidores.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p. Publicado originalmente no jornal FSP: 08/09/1985.

Gabriel Fauré

Requiem op. 48

Jean Fournet, Director

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