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Garoava em São Paulo. Era década de 50. Ela lá estava com um guarda-chuva, parada em uma fila de cinema no bairro de Santa Cecília. Não sei como, mas de longe ele a percebeu. Havia já quatro anos que não se viam. Seu coração acelerou. Será que teria coragem? Abrigou-se em um prédio em construção do outro lado da rua, bem em frente ao cinema.

Esquecera o chapéu e sua careca branquíssima estava à mostra. Sem chapéu perdia a autoconfiança. Hesitou, mas logo se decidiu, seria agora ou nunca. Suava frio. E se a fila começasse a andar? Respirou fundo, arrumou a gravata. Mas eis que o céu lhe tomba sobre a cabeça. Um vasto estrondo. Na sua careca. Algo desabara. Seria um andaime. Não. Era um gato, um gato raivoso, enorme, miando alto. Todo mundo olhava. E o gato agarrado em sua careca, arranhando, tirando sangue. Foi a última vez que viu Tereza.

Créditos de imagem: weatherpix.us

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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