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A história do sindicalismo na Europa e nas Américas é plena de altos e baixos.  Houve momentos de verdadeiro heroísmo de seus dirigentes.  Houve lutas justas, libertadoras, ganhos sociais duradouros, avanços contra verdadeiras situações de escravidão.

Mas também houve perversões, abusos inadmissíveis.  Houve extorsões.  Sim, houve, quando gângsteres se apoderaram de sindicatos.  Acontecimento que se tornou frequente nos EUA na primeira metade do século 20.  E o maior prejuízo para uma nação decorreu desse mesmo fenômeno, ou melhor, ocorre ainda hoje no Brasil.

Não sob a forma tradicional de sindicalismo do proletariado, mas como insidioso corporativismo de privilegiados, travestidos por vezes de socialistas, mas cuja lide é exclusivamente pelo aumento de privilégios pessoais.

Foi da atuação dessas organizações que nasceu a derradeira e a mais perversa dessas condições.  Nas universidades federais brasileiras, para ascender na carreira, basta não fazer nada.  A promoção ocorre por tempo de serviço.

Essa perversão, conjuntamente com a estabilidade inerente ao serviço público, é um poderoso incentivo ao ócio, ao desleixo, ao caos.

Infeliz situação que se agrava com o vício demagógico característico da universidade brasileira, como as eleições para reitores e outras autoridades da instituição.

O sufrágio se torna campo aberto de negociatas.  O aluno vota em quem promete mais para o seu conforto: refeitórios, dormitórios, transporte.  É natural, mas é perverso.

Funcionários votam em quem promete aumentos salariais.  É natural, mas é perverso.  Docentes e pesquisadores votam em quem promete compartilhamento de poder, guiados unicamente pelo propósito do ganho pessoal.

Assim, comissões se multiplicam.  “Se Einstein nos aparecesse à porta procurando um lugar, precisaria esperar pelo menos dois anos para ser contratado”, disse-me um reitor.  Jamais são privilegiados ou mesmo discutidos os valores próprios da universidade, a produção de conhecimento, a qualidade do ensino, o mérito do docente.  Mérito, avaliação e metas são palavras malditas.

Aliás, é notável que ainda sobrevivam nichos de qualidade, algum respeito pela competência acadêmica.  O corporativismo, explicitado sob a forma de associações, consolida, cimenta essas distorções e compromete definitivamente a qualidade.

Associações de docentes quase nunca se preocupam com o declínio acadêmico.  Conselhos universitários deixam de eleger sua própria lista tríplice para reitor, se conformam, para não dizer que se acovardam, e confirmam a escolha imposta pela corporação interna.  A desculpa é que se trata de um processo democrático, mas não é.

Trata-se, na verdade, de um processo fascista, pois a universidade foi criada pela sociedade e é por ela sustentada, pois ela, a sociedade, precisa de produção de conhecimento.  A sociedade, e não a corporação, é a legítima responsável pela direção da universidade.  A usurpação desse direito pela corporação interna conforma uma solução fascista.

Uma fórmula adequada para a constituição de um conselho universitário que respeitasse os direitos legítimos de todos é uma distribuição tripartite, com um terço de membros escolhidos pelo governo, um terço de representantes da sociedade civil e um terço de professores que acumulassem experiência universitária.

FSP: 25/08/2016.

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Showing 8 comments
  • Regis Torquato Tavares
    Responder

    Rogério,

    Você não acha que excluir discentes e técnico-administrativos nesse conselho ainda ratifica o modelo fascista apresentado?

    Será que, dentro das universidades, não é esse poder exarcebado dos docentes (soberba?) na tomada de decisões que provoca tamanha ineficiência nos processos acadêmicos?

    Acredito que compartilhar a gestão seria o primeiro passo para acabar com o fascismo instaurado, e esse compartilhamento tem de começar de dentro pra fora.

  • Márcia Moreira
    Responder

    “Nas universidades federais brasileiras, para ascender na carreira, basta não fazer nada.”
    Depois de ter lido essa frase o texto perdeu credibilidade. Pergunto…como um professor da unicamp pode dizer uma barbaridade dessa? O srnhor sabe o que é chegar a ser um professor titular dentro de uma universidade?
    Parece que não.. tem que ralar muito pra atingir a pontuação…

    • LEONARDO JANDRE MATARUNA
      Responder

      Prezada Senhora,
      Infelizmente não pude localizar seu CVLattes para saber sobre sua carreira.
      A minha carreira acadêmica finalizou-se no mestrado e honestamente não desejo mais investir minha vida, tempo e dinheiro depois do que testemunhei.
      Creio que o artigo peca por incompletude e omissões. Mas tudo o que está escrito é completamente verdade e o articulista poderia ter ido muito além em suas denuncias e opiniões.
      Extrair uma frase fora de contexto, como a senhora fez no comentário, é exatamente uma das lamentáveis práticas do continuísmo incapaz de refutar as hipóteses, teses e conclusões publicadas aqui.

  • Sergio Hiroshi Manabe
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    Retirando os técnicos administrativos dos conselhos, o bolo seria destinado prioritariamente aos docentes… simples assim.

  • José A. Cordeiro.
    Responder

    Caro professor, “…guiados unicamente pelo propósito do ganho pessoal. …”, não é menos fascista que a acusação de fascistas a determinados setores da universidade inferir que todos os membros da academia procedam por esse conjunto de valores ou o senhor estaria desmentindo a si mesmo. Por outro lado, “…precisa de produção de conhecimento. A sociedade, e não a corporação, é a legítima responsável pela direção da universidade. …”, é necessário que seja esclarecido o que seja produção de conhecimento, se está referindo ao conhecimento pelo conhecimento ou ao conhecimento objetivamente utilitário. Se utilitário, a qual estrato social ele deve responder? Pois cada um tem interesses particularizados. Sociedade, assim como “povo”, são sempre significantes que se prestam magistralmente à demagogia e muitas vezes pode se dizer de um ou de outro quando efetivamente se está defendendo interesses muito bem determinados mas escamoteados da aparência.

  • Paula
    Responder

    as universidades são como algum rito de crenças..há de se iniciar antes de almejar algo mais…e ainda..se iniciar pelos caminhos certos sob pena de viver na penumbra para todo o sempre, ou simplesmente ser alijado por não compartilhar com o cientificamente correto da época em questão. Uma vez que tenha optado pelos caminhos tortos…não há volta…quiça em outra universidade e em outro foco de conhecimento…

  • Paula Seabra Dutra
    Responder

    Moderador deste site, ignore minha resposta…não vale a pena..enquanto estou por ali

  • Moacir
    Responder

    Populista safado. Amargurado, mentiroso, comprado, cego? quem sabe

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