Em Destaques, Pequenos Contos

Era uma moça tímida, muito tímida mesmo. Não era feia, nem tão pouco bonita. Dessas que dizemos ser interessante: tomavam o café da manhã na pensão, quase sempre no mesmo horário. E à tarde ele a via por vezes no saguão, sentada lendo um livro ou uma revista.

Trocavam sorrisos como cumprimento. Naquele dia ele conversava com amigos, rapazes e moças, em uma mesa no saguão. Bebiam cerveja e mastigavam amendoim. Subitamente ele sentiu cólicas. Seria a feijoada da véspera?

Estava no meio de um discurso e não queria perder o fio da meada. Ficou de pé e continuou falando. Era um pouco exibicionista. Mas a pressão nos intestinos se agravava. Começou a se distanciar da mesa, sem parar de falar. Era uma história calorosa, excitante.

Continuou se afastando de costas. Já estava suficientemente longe dos amigos. Certamente nada escutariam. Aliviou-se. Só então percebeu que ela estava lá, atrás dele, sentada, aterrorizada. No dia seguinte a procurou para pedir desculpas. Tentar se explicar. Tarde demais. Ela tinha se mudado.

Créditos de imagem: heraldsun.com.au

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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