Em Ciência e Educação, Destaques

Por Antônio Gois

Professor emérito do Instituto de Educação da Universidade de Londres, Robert Cowen esteve no Rio na semana passada participando de um workshop sobre Inovação e Educação, na Universidade Estácio de Sá. Em entrevista ao GLOBO, ele criticou o formato dos cursos de MBA no mundo e disse que, no Brasil, “a última coisa que vocês precisam é de um bando de tecnocratas pensando em como organizar o país”.

O mercado de trabalho muda em velocidade cada vez maior, mas, no Brasil, por exemplo, os cursos universitários mais procurados seguem sendo os mesmos há décadas. Como as universidades podem se adaptar a essa realidade?

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico diz há tempos que as pessoas terão não apenas que mudar de emprego, mas trocarão de carreira ao menos três ou quatro vezes na vida. Colocar um rótulo no diploma é certamente uma forma muito pobre de enfrentar esse desafio. Hoje, não importa o que os governos façam, o futuro será moldado pelos fenômenos da internacionalização e da inovação. As universidades, as fundações, as empresas, os institutos, todos terão que achar um jeito de se adaptar a essa realidade. As pessoas mais preparadas no mercado de trabalho sabem exatamente o perfil dos trabalhadores que querem contratar, e vão achar um jeito de treiná-los, mesmo que dentro das empresas. No Japão, por exemplo, os empregadores não se importam tanto com qual diploma os jovens têm, desde que seja de uma boa universidade, pois eles serão treinados internamente.

Mas o que deve mudar na formação universitária para adaptar o jovem a essa nova realidade?

O modelo comum no Reino Unido é o de simplesmente deixar os estudantes livres para escolherem suas carreiras, e esperar que eles se ajustem às demandas do mercado. O paradoxo desse modelo é que, se você pesquisar o perfil das pessoas que estão à frente das 15 maiores empresas britânicas, verá que um número surpreendente é formado em história, apesar de as carreiras mais procuradas serem administração ou direito. Outro modelo é o americano, em que é comum você ter três diplomas — de graduação, mestrado e doutorado — em áreas diferentes, o que permite uma formação mais ampla. Outro exemplo é o do Japão, onde o curso é menos importante do que a universidade para a qual você passou. A lógica é que, se você foi inteligente o suficiente para entrar numa instituição concorrida, conseguirá emprego, mesmo que em outra área.

No Brasil, há quem critique o fato de darmos muita ênfase ao ensino de humanidades, e investirmos pouco em carreiras tecnológicas. Como o senhor se posicionaria neste debate?

É uma discussão internacional. No ano passado, tivemos um caso no Reino Unido de uma brilhante escritora e professora de Literatura da Universidade de Essex, Marina Warner, que se demitiu criticando os dirigentes daquela instituição. Ela disse que eles estavam preocupados apenas em formar professores nessas áreas, e não pensadores. Por que há tantos historiadores entre os executivos das empresas mais importantes na Inglaterra? Porque as pessoas no mercado têm que absorver um volume enorme de dados e ser hábeis em fazer julgamentos importantes diante de informações incompletas. É exatamente o desafio que um historiador enfrenta. Você não precisa de um MBA para isso, apesar de os MBAs terem virado um modismo.

Qual o problema com os MBAs?

Eles produzem um grande número de gerentes sem visão histórica ou sociológica. O diploma de MBA hoje em dia é até perigoso, pois dá as pessoas um excesso de confiança em suas habilidades para tomar decisões. É claro que há instituições de altíssimo nível que oferecem bons cursos, mas o MBA virou um negócio lucrativo que ensina muito sobre técnicas, mas nada sobre sabedoria. Não acho uma boa ideia deixar as decisões mais importantes nas mãos de técnicos. Eu me lembro do desastre americano no Vietnã, quando eles achavam que estavam ganhando a guerra porque faziam uma contagem de mortos de cada lado. Foi um erro gigantesco, baseado num modo extremamente tecnocrático e não intelectual de tomar decisões em cima dos dados. No Brasil, um país com tantas questões sociais importantes, certamente a última coisa que vocês precisam é de um bando de tecnocratas pensando em como organizar o país.

Pulicado no jornal O Globo: 21/06/2015.
Antônio Gois. Jornalista.


Créditos de imagem: portal.uepg.br

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