Em Análises e Reflexões, Destaques

Estudos recentes do Ministério de Energia dos Estados Unidos confirmam previsões correntes sobre algumas diferenças entre crescimento econômico e de consumo de energia desde 1970 e suas consequências ecológicas. De fato, como esperavam e, mais do que isto, como ardentemente propunham os conservacionistas e analistas da linha do desenvolvimento autossustentado, os aumentos do consumo de energia fóssil nos países industrializados foram sensivelmente menores, medidos em percentuais, que os respectivos crescimentos econômicos.

Neste período também se consolidou a convicção de que a mais aguda ameaça ao meio ambiente é a emissão de gás carbônico, principal responsável pelo efeito estufa. Entre 1970 e 1992 o crescimento da emissão do dióxido de carbono foi de apenas 28% nos países desenvolvidos, em contraste com um aumento de 82% nos países em desenvolvimento.

Este contraste se torna ainda mais saliente se lembrarmos de que, globalmente, o desenvolvimento econômico dos países desenvolvidos foi, neste mesmo espaço de tempo, significativamente superior àquele dos países em desenvolvimento.
Infelizmente a origem deste baixo índice de aumento de consumo de fósseis nos países desenvolvidos não é devido exclusivamente a melhorias na eficiência do uso de combustíveis fósseis.

Em realidade a maior contribuição para esta redução do consumo de energia é a mudança do perfil da atividade econômica nos países desenvolvidos. Maior participação do setor de serviços, infraestruturas e populações já estabilizadas, com a conseqüente redução de indústrias caracterizadas pelo dispêndio elevado de energia e o surgimento de indústrias intensivas em tecnologia em setores economicamente importantes tais como informática e telecomunicações. Secundariamente contribuiu também para esta redução de consumo de energia fóssil por unidade do PIB as participações incrementadas da energia nuclear e hídrica nas matrizes energéticas dos países avançados.

Como em 92 apenas 16% da população mundial, aquela concentrada nos países do Primeiro Mundo, ainda consumiam cerca de metade da energia fóssil, podemos esperar que, mantida a atual estrutura de produção e consumo de energia, será praticamente inevitável um significativo aumento do consumo de fósseis. Isto se, de fato, quiser a humanidade dirimir os desequilíbrios regionais na distribuição de riqueza.
Enfrentamos, portanto, um segundo dilema além daquele decorrente do eventual escasseamento do petróleo, que é de natureza ambiental. Para que os países ditos em desenvolvimento alcancem um nível aceitável de qualidade de vida, será necessário, dentro dos limites tecnológicos e econômicos atuais, aumentar o consumo de energia de origem fóssil. E com isso estaremos necessariamente aumentando os níveis de emissão de dióxido de carbono.

Se, apenas para ilustrar o que isto pode significar, admitíssemos que todo habitante da Terra passasse, instantaneamente, a consumir a mesma quantidade de energia que dispende hoje, em média, um indivíduo do Primeiro Mundo, uma catástrofe ocorreria.
Tudo que está previsto acontecer dentro de meio século, como por exemplo, a fusão dos gelos polares com conseqüente inundação das populosas cidades litorâneas, viria a ocorrer em dez anos.

É claro que se a população da Terra continuar a crescer no ritmo previsto e o consumo de energia continuar a evoluir de acordo com as características atuais, as conseqüências serão aceleradas, mas não ocorrerão em dez anos. Mas certamente será reduzido significativamente o período de tempo de que dispõe a humanidade para encontrar alternativas.

É, portanto, fundamental encontrar e utilizar toda e qualquer alternativa aos combustíveis fósseis. Com esta finalidade e também com o intuito de reduzir o nível de poluição local, estabeleceram recentemente os países industrializados incentivos fiscais e legislações restritivas de maneira a induzir a substituição, pelo menos parcial, de hidrocarbonetos por álcool de vários tipos, mas preferencialmente oriundos de biomassa.
A biomassa tem quase sempre a preferência nessas regulamentações porque sua produção recupera o dióxido de carbono emitido na sua combustão.
Algumas legislações como a da França, por exemplo, libera de todo e qualquer imposto o álcool combustível proveniente de biomassa francesa. E as discussões que pretendem um acordo para a comunidade econômica européia anteverem redução para um máximo de 10% dos impostos.

Como para todos os combustíveis automotivos, o maior componente do preço ao consumidor é devido à impostos em todos os países europeus exceto a Rússia e alguns de seus antigos associados, o álcool poderá se tornar facilmente competitivo apesar de seus elevados custos de produção na Europa.

Aliás, nos Estados Unidos, que já é o segundo produtor mundial de álcool combustível com a metade da produção brasileira, os custos de produção já estão apenas 20% e 30% acima da média brasileira a despeito da grande vantagem competitiva fornecida pela exuberância da cana e pelo clima adequado do Brasil.

Bastaria, entretanto, imitarmos Estados Unidos e os países europeus, atribuindo incentivos equivalentes àqueles utilizados nesses países ao álcool combustível, para recompor o Pró-Álcool, exportar etanol e darmos uma grande contribuição à contenção do efeito estufa.

* Artigo publicado no jornal FSP em 22/09/1994.

 

Créditos de imagem: eco.ib.usp.br

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)