Em Destaques, Sem papas na língua

A inumerável sequência de “besteiróis” energéticos nacionais se reparte em dois subconjuntos distintos. O primeiro inclui os besteiróis autóctones, que servem para demonstrar que o Brasil, afinal de contas, não fica atrás de qualquer que seja o país em matéria de besteirol tecnológico. O segundo encerra as besteiras “macaqueadas” de outros países, principalmente dos EUA.
Dentre os recentes besteiróis iminentemente originais destacam-se a Coalbra, o álcool da mandioca e, agora, culminando a parada grotesca, o biodiesel de soja. A Coalbra foi um programa para produção de álcool etílico por hidrólise da madeira. Todavia sua real finalidade era a de fustigar os “usineiros”, que controlavam a seu bel-prazer os preços do álcool da cana-de-açúcar. Foram, assim, adquiridos da Rússia equipamentos e tecnologias obsoletos que serviam para produzir glicose. O fracasso foi retumbante. A usina produzia menos álcool do que consumia de ácido sulfúrico. Outro fiasco foi a usina de álcool de mandioca. Erigiram a usina e esqueceram que precisava de matéria-prima. Mas foi bom. Aprendemos o quanto é importante a logística em agronegócios (será que aprendemos?).

Mas eis que, agora, o governo suplanta a si mesmo na categoria besteirol autóctone, ao incluir em seu programa de biodiesel usinas que usam como matéria-prima a soja (40% do programa), que, para a produção de energia, apresenta uma produtividade por unidade de área que é cerca de 10%, por exemplo, da de cana-de-açúcar e da do dendê. E, como conseqüência, seu balanço energético é extremamente baixo. Para produzir 1 l de biodiesel de soja é preciso despender a energia de quase 1 l de gasolina. Assim, a contribuição para redução do aquecimento global é praticamente nula.

Poder-se-ia argumentar que, como aconteceu com o álcool, a produtividade viesse a crescer significativamente com o tempo. E isso é muito provavelmente verdade para outros cultivares, tais como o dendê e a mamona, mas certamente não para a soja. Contrariamente ao que muitos acreditam, o glorioso aumento de produtividade na produção de álcool não decorreu principalmente da tecnologia empregue no segmento industrial, mas antes da melhoria genética e logística. E estes últimos fatores já estão incluídos na produção de óleo de soja, mas ainda não nos casos do dendê e da mamona. A produção de biodiesel de soja só se sustenta por causa de subsídio. E, além do mais, ocupando terras dez vezes mais extensas do que ocupariam outros cultivares energéticos para o mesmo volume de produção, logo será um constrangimento econômico e social insuportável.

O pior, entretanto, é quando o besteirol é macaqueado. A retórica é sempre a mesma. Se é bom para os americanos, é bom para nós, brasileiros. Eles têm uma matriz energética diversificada. Então a nossa, que baseia sua produção de eletricidade quase que exclusivamente em potenciais hídricos, só pode ser defeituosa. Esse é um argumento perene que serviu para justificar tanto o desventurado acordo nuclear com a Alemanha como o desastroso programa de termonucleares a gás da dupla Cardoso-Parente. Esse argumento também serviu para ajudar a sufocar o Proálcool.
Pois bem, nessa mesma esteira simiesca eclode agora o besteirol supremo, a badalada “economia do hidrogênio”. No Brasil e no mundo, o hidrogênio já vem sendo considerado há muitas décadas um energético secundário para certas aplicações restritas. Na Unicamp, para dar um exemplo, esse combustível vem sendo estudado há mais de 30 anos. Como não é poluente, a possibilidade de o usar em meios urbanos densamente povoados parece atraente. Todavia os inúmeros esquemas desenvolvidos para produzir hidrogênio diretamente da energia solar têm sido decepcionantes, com rendimentos ínfimos. Produzi-lo, por outro lado, a partir de outros energéticos não faz tanto sentido no que concerne ao combate ao aquecimento global. Pois ou usamos como combustível primário um dos fósseis, e somos obrigados a recorrer a um dos insólitos e dispendiosos esquemas de seqüestro de carbono, ou usamos eletricidade de origem hídrica, e com isso esgotamos nosso potencial.

Uma economia de hidrogênio inclui, necessariamente, produção, armazenamento, transporte, aplicação e segurança. Não sendo encontrado livre na natureza, para o produzir temos que buscá-lo em compostos químicos que o contenham (água, hidrocarbonetos etc.). E existem inúmeras rotas tecnológicas. Porém, qualquer que seja o processo, haverá perdas energéticas expressivas.
Armazenar hidrogênio é também dispendioso financeira e energeticamente, pois para liquefazê-lo é necessário desperdiçar um terço da energia contida, e recuperá-la envolve custos significativos. Esse gás é constituído de moléculas pequenas, menores que as de outros gases, que escapam por fendas insuspeitas, invadem metais e outros materiais, fragilizando-os. O transporte, assim como o armazenamento, embora inúmeros esquemas tenham sido considerados, teria que ter seus custos reduzidos por fatores entre dez e cem para se tornar competitivo. Mais valeria para o Brasil (e talvez para o mundo) instalar uma economia do etanol ou talvez do metanol, embora envolvesse uma dessas opções o risco de se tornar um sucesso econômico e tecnológico e, assim, termos que abdicar do troféu de campeões mundiais do besteirol energético.


* Publicado no jornal FSP (12/04/2005)

Créditos de imagem: adubarofuturo.com.br

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Rogério Cerqueira Leite
Físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)