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Desde a revolução agrícola, sete ou oito mil anos antes de Cristo, quando o homem incorporou o conceito de trabalho à sua cultura, a escravatura se constituiu em uma solução frequente para o problema da mão-de-obra. A própria civilização helênica só foi possível graças à servidão. Portanto, não é de estranhar que diversas espécies de formigas tenham adotado a mesma prática, o que ocorreu pelo menos 30 milhões de anos antes que o homem a tivesse descoberto.

“Formica Sanguínea” é uma das variedades escravagistas melhor conhecidas. Uma escoteira, ao encontrar um ninho de uma espécie do grupo “fusca”, retorna ao seu formigueiro deixando um rastro de odor que permitirá aos grupos de combate da “sanguínea” chegar rapidamente até a cidadela da “fusca”. Já na entrada, os batalhões da espécie agressora se organizarão para um ataque maciço. Urna estratégia semelhante àquela adotada pelas Forças Armadas alemãs, a famosa britzkrieg. Uma vez dentro do ninho, a “sanguínea” vaise dedicar prioritariamente à coleta de pupas. As valentes “fuscas” atacarão as invasoras, mas pouco adiantam seus esforços contra as poderosas mandíbulas das “sanguíneas”. As invasoras se retirarão rapidamente e as derrotadas retomarão, conformadas, o serviços de limpeza e de atendimento à prole restante. Em geral, a “sanguínea” não ataca a rainha, nem destrói as larvas, preservando assim a fonte de trabalho braçal de que precisa. Neste particular as formigas se mostram mais civilizadas que muitas nações do passado, que pilhavam cidades dizimando desnecessariamente suas populações.

As pupas raptadas serão tratadas com dedicação idêntica àquela dada à prole da espécie vitoriosa, tanto pelas obreiras escravizadas anteriormente da “fusca” como pelas operárias da “sanguínea”. A espécie escravizada servirá para todas as tarefas internas do formigueiro e, eventualmente para algumas funções no exterior. Por vezes, a formiga escravagista capturará membros de duas ou três espécies diferentes, atribuindo-lhes tarefas diversas. A “Formica Wheeleri”, por exemplo, captura frequentemente duas espécies: a “Formica Fusca” e a Formica Nearu Fibarbis”. Às vezes, três ou mais.

A “fusca” se dedica ao cuidado da prole e da rainha enquanto a “nearu fibarbis” acompanha a “wheeleri” nas excursões guerreiras e no serviço externo de coleta de alimento. Se atacado o formigueiro, a agressiva escrava será tão pugnaz quanto a. escravagista. Um fenômeno também corrente entre os homens. Algumas das mais aguerridas legiões romanas, depois de Justiniano, eram compostas por gauleses. Regimentos hindus eram usados com eficiência pelos ingleses contra movimentos liberadores na Índia. Esse requinte, é bem verdade, ainda não foi alcançado pelas formigas, tanto quanto se saiba.

A “sanguínea” é um exemplo de escravagismo facultativo. Se não houver nas vizinhanças ninhos de uma das espécies escravizáveis, a “sanguínea” sobrevive normalmente. Este já não é o caso de outro grupo de escravagista, o Polyergus, que especializou a tal ponto seu aparate fisiológico que é incapaz de sobreviver sem escravos. Precisa, inclusive, ser alimentado pelas suas servas, pois língua e boca foram atrofiadas no processo evolutivo de maneira a ceder lugar às suas espessas mandíbulas.

Uma outra forma de escravidão ocorre quando urna jovem rainha de  espécie agressiva invade um formigueiro de outra espécie e, matando sua legítima monarca, passa a fruir dos serviços prestados pelas obreiras locais. Em alguns casos apenas machos e fêmeas são gerados pela usurpadora, ficando todos os encargos com a espécie dominada, que agora está impedida de reproduzir. Todas estas formas de escravidão apresentadas por diferentes variedades de formigas não devem deixar o homem consternado pois, se esteve até fins do século passado em inferioridade, em comparação com esses insetos podemos hoje dizer ‘que está desenvolvendo mecanismos bastante sutis de dominação sobre seus co-específicos.

Povos escravagistas no passado – formigas ainda hoje buscam com o escravagismo apenas mão-de-obra barata e acesso a custos convenientes, a recursos naturais de outros países. Ora, esses benefícios são hoje plenamente assegurados, sem o uso de força, simplesmente pela aplicação de ferramentas econômicas, tais como o artifício de uma dívida externa ou a dominância do capitai estrangeiro no setor produtivo do país colonizado ou, ainda, a cumplicidade de títeres submissos atuando no setor econômico da sociedade a ser subjugada. Não há dúvida, o homern é mais sagaz que a formiga.


Créditos de iagem: http: chc.cienciahoje.uol.com.br

 

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