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Haydn não somente inventou e desenvolveu a forma sonata, mas também concebeu e explorou as principais combinações instrumentais baseadas nesta fórmula orgânica, ou seja, a sinfonia, a sonata para piano e o quarteto para cordas e seus derivados. Também o trio para piano e cordas e o concerto para instrumento solista e orquestra, receberam desse versátil compositor as primeiras tinturas.

É um erro simplório, embora bastante comum, procurar as origens da música de câmera Clássica, seja nas sonatas da camera seja na da chiesa, do chamado período Barroco. Há maior afinidade entre um Quarteto ou um Trio de Haydn ou Mozart e uma Sinfonia do mesmo período, do que com uma Trio-Sonata de Bach ou Haendel. A coincidência entre os números de instrumentos ou de vozes é absolutamente irrelevante.

Haydn, com auxílio de Mozart, a tal ponto levou a cristalização dessa fórmula, o quarteto para cordas, que esse se tornou um gênero musical organicamente institucionalizado. Trios e quintetos para cordas, e por vezes sextetos, são meros variantes, fundamentalmente idênticos à fórmula original perfeita, ao paradigma que é o quarteto. É desse específico gênero que tratamos aqui. Quais os momentos supremos da música de câmera para cordas? Essa é a questão que procuraremos responder, com a usual hesitação e necessária arbitrariedade.

Começamos, pois com Haydn, autorizados pela convicção de que a rica música instrumental que o precede pertence a outros gêneros musicais. E para deixar claro as condições de contorno aqui tomadas, devo esclarecer que incluo em minhas considerações as obras que contêm, por exigências de seu mandato expressivo, um ou mais instrumentos de sopro e mesmo o piano. O fato da lista não conter nenhum trio, ou quarteto, ou quinteto para piano, é apenas evidência da inerente instabilidade que caracteriza essa combinação de instrumentos.

Em Haydn concentramo-nos, portanto, em seus quartetos, deixando de lado cento e vinte e cinco Trios para “baryton” e cordas, trinta e um Trios para piano e inúmeras outras obras de câmera. São oitenta e quatro quartetos clássicos, e nossa escolha é obviamente pessoal. Do Op. 33, tão revolucionário quanto o 20, escolhemos esse inconfundível nº 3 (o 40º da série integral), em Dó Maior, apelidado O Pássaro, certamente porque canta do começo ao fim. E do Op. 76, a última série completa, representando a plenitude do gênio do compositor, escolho o nº 1 em Sol Maior, em vez dos tão famosos Quintenquartett, Imperador ou Aurora, do mesmo conjunto.

Mozart contribuiu quase tanto para o desenvolvimento e a consolidação do gênero quanto Haydn, e as duas obras que dele selecionamos foram escritas no período decorrido entre as duas composições de seu mestre e amigo, Haydn, acima mencionadas. A primeira obra de Mozart a ser escolhida é extraída do ciclo de Seis Quartetos dedicados a Haydn, aquele em Dó Maior, KV 465, denominado Dissonanzen devido às suas ousadias harmônicas. E a segunda obra escolhida é esse exemplo maior do lado Expressionista de Mozart, o Quinteto em Sol Menor, KV 516, para cordas.

E depois de Mozart vem Beethoven, de quem escolhemos três quartetos, aqueles em Mi Bemol Maior, Op. 127, em Si Bemol Maior, Op. 130 e em Lá Menor, Op. 132. Essas obras não apenas contêm o que de melhor compôs Beethoven, mas também a sua confissão testamentária, a um tempo revolucionários e libertadores. Tudo aquilo que torturou Beethoven nos anos anteriores em que compôs suas últimas sonatas para piano, a Missa Solene e a Sinfonia Coral, foi enfim conquistado. Foi ao terminar o Op. 130 que Beethoven teve a certeza de que era ele um Deus. Mas foi com a força de seu imenso intelecto e não pelo simplório caminho da fé que Beethoven alcançou a transcendência. E é uma injustiça abominável não incluir o Op.131, em Dó Sustenido Menor, o grande integralizador.

De Schubert escolho seu Quarteto em Ré Menor nº 14, “A Morte e a Donzela”, e seu Quinteto em Dó Maior (com violoncelo adicional), duas obras que merecem estar ao lado dos últimos Quartetos de Beethoven. Para preencher a última vaga, proponho o Quinteto para clarineta de Brahms, em Si Menor, Op. 115.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p.

Franz Schubert

“A morte da donzela” – Quarteto de cordas n º. 14 em Ré menor Alban Berg Quartet

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Créditos de imagem: fotocommunity.de

 

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