Em Conjuntura Internacional, Destaques

Reduzido no plano doméstico à condição de “pato manco”, e esforçando-se para escapar de nova guerra desastrosa no Oriente Próximo, o Presidente Barack Obama tentou agora, em novembro de 2014, recuperar o brilho obtido em 2012 com o seu “pivô” para a Ásia-Pacífico. Foi a Pequim participar da cúpula da APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) no dia 10/11/14, e dias depois a Mianmar para a cúpula da ANSEA (Associação das Nações do Este-Asiático). No intervalo, estendeu sua permanência em Pequim para uma visita de Estado. Em 2012, recorde-se, Obama tentou obscurecer o papel da APEC, associação de que participa a China, pondo ênfase numa Parceria Trans-Pacífica (PTP), a ser criada sem os chineses. A PTP vem marcando passo, basicamente por causa de desacordos dos EUA com o Japão, e empalideceu agora em Pequim, diante da enérgica liderança da sessão da APEC, assumida por Xi Jinping. Marcos Caramuru (Folha de S. Paulo, 17/11/14) pôs em relevo a agenda moderna que a APEC está desenvolvendo por inspiração da China: cadeias produtivas, comércio com valor adicionado, inovação e interconexão. No contexto regional, assinala ainda Caramuru, a China anunciou entendimentos com membros da APEC, relativamente a iniciativas já em marcha como o novo banco asiático de infraestrutura e um fundo para reviver a Rota da Seda. Xi Jinping deixou clara sua intenção de contrapor-se aos esforços dos EUA, ampliando a influência regional da China, como no caso da assinatura de um acordo preliminar de livre comércio com a Coréia do Sul. O comunicado final da sessão da APEC previu avanços na Área de Livre-Comércio da Ásia-Pacífico, o bloco de 20 economias que Pequim está promovendo em oposição à PTP.

A cúpula da APEC levou também a Pequim Vladimir Putin e o japonês Shinzo Abe. Isso permitiu, segundo os jornais, que Obama e Putin se cruzassem três vezes, trocando breves e tensas conversas sobre a crise na Ucrânia; o apoio de Moscou ao governo da Síria; e a data limite para as negociações sobre o programa nuclear do Irã. Nem o Kremlin nem a Casa Branca ampliaram o que vazou dessas três conversas. Quanto à presença do Primeiro Ministro japonês, marcada por um constrangido aperto de mão com Xi Jinping, no primeiro encontro desde que ambos assumiram seus cargos em 2012, trouxe a oportunidade de uma conversa de 30 minutos entre os dois líderes. Pequim e Tóquio haviam publicado, dias antes, um comunicado comprometendo-se a evitar ações que agravassem o litígio em torno das ilhas Diaoyu (Senkaku, para os japoneses), e Abe propôs agora a criação de um “mecanismo de comunicação marítimo”, a fim de evitar incidentes na área em disputa. Cabe ainda registrar a boa oportunidade que a APEC deu a Putin de aumentar a aproximação com a China, num esforço por mostrar que a Rússia não está isolada e dispõe de opções estratégicas e econômicas no plano mundial. À margem da cúpula, a Gazprom assinou um novo acordo de fornecimento de gás à CNPC chinesa. Além dos 38 bilhões de metros cúbicos anuais previstos por um acordo assinado em maio, comprometeu-se agora a Gazprom a fornecer outros 30 bilhões de metros cúbicos anuais. Com uma grande diferença. O gás comprometido em maio deverá vir de campos no leste da Sibéria, ainda por desenvolver. Os novos fornecimentos sairão da Sibéria ocidental, na mesma área que supre atualmente a Europa.

Mas o face a face mais expressivo ocorrido em Pequim, em novembro 2014, veio com a visita de Estado de Barack Obama, nos dias 11 e 12. Os chineses procuraram repetir o clima de cordialidade e informalidade do encontro de Xi Jinping com Obama na Califórnia, em 2013, inclusive com o passeio a dois num jardim paisagístico. O momento desse segundo encontro era bem outro, no entanto. Obama enfrenta um melancólico final de governo, enquanto Xi ainda tem diante de si oito anos de prováveis êxitos. E o ambiente estratégico no Pacífico Norte é de tensão. Há três meses, o Pentágono acusou a Força Aérea chinesa de interceptar, perigosamente, um avião de reconhecimento americano perto da costa. A ideia de perigo refere-se ao choque de aviões em 2001; e o problema de fundo é que a China rejeita ações de monitoramento que os EUA se permitem. O incidente determinou a ida a Pequim da conselheira de segurança nacional, Susan Rice, que se trancou durante oito horas com seu correspondente chinês, Yang Jiechi. Este visitou depois John Kerry, na sua casa em Boston. Apesar desses senões, os dois Presidentes lograram arrematar uma negociação, que vinha sendo conduzida em segredo, para cortes significativos nas emissões de gases estufa nos seus respectivos países, num passo importante em direção ao acordo global a ser discutido em Paris, em 2015. Obama obteve também a anuência da China em eliminar mais de 200 categorias de tarifas, num tratado para expandir o comércio de produtos de tecnologia da informação e comunicação (ITA na sigla inglesa), que está sendo negociado sob a égide da OMC. A China lembre-se, é o maior exportador mundial de eletrônicos em geral, com Taiwan, Coréia do Sul e Japão atuando cada vez mais como supridores de peças para a imensa indústria eletrônica chinesa. Registre-se ainda que o Brasil não faz parte do ITA.

A etapa de Mianmar, finalmente, surgia como capaz de justificar as expectativas otimistas de Obama, nesta viagem ao Leste Asiático. A presença em Naypyidaw seria apenas para acompanhar sessão plenária da ANSEA, como um entre os vários “companheiros do diálogo” que os dez membros da associação convidam regularmente para tais eventos. Mas o Presidente americano esperava obter visibilidade especial, em função do trabalho diplomático posto em marcha desde 2011, por Hillary Clinton pessoalmente, com vistas a retirar Mianmar do isolamento internacional em que caíra o país, afastando-o no mesmo passo da grande dependência diante da China. Só que a marcha desses desideratos está estagnada. O momento-chave que seriam as eleições presidenciais previstas para 2015 vem perdendo significado, e já há dúvida de que o pleito se realize. De todo modo, não ocorrerão as reformas que permitiriam a candidatura de Suu Kyi, a figura com cuja liderança contavam os EUA. Obama encontrou-se com ela. A foto circulou pelo mundo, mas a Reuters registrou que Obama não está mais insistindo na candidatura da líder da Liga Nacional pela Democracia no Mianmar.


Créditos de imagem: economywatch.com

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