Em Análises e Reflexões, Destaques

Por Sheila Dow 

“Os indivíduos neste país estão fartos de especialistas.” Foi essa a reação do principal defensor do “Brexit”, Michael Gove, quando confrontado com a longa lista de instituições especializadas, entra elas o FMI, que defendem a tese econômica de que a Grã-Bretanha deve permanecer na União Europeia.
Essa é uma declaração chocante, especialmente por vir de um ex-ministro da Educação tão culto. Como economistas profissionais, nos vemos a contribuir para a sociedade justamente por meio de nossa perícia. Todavia, Gove apontava para uma tendência no discurso público de desprezar opiniões especializadas, que ganhou impulso durante a campanha para a eleição presidencial nos Estados Unidos.

Aliás, esse não é um fenômeno transitório. Evidências empíricas do fosso entre opiniões especializadas e leigas sobre políticas econômicas nos Estados Unidos foram dadas por Sapienza e Zingales (2013), e tal fosso não foi afetado quando os leigos foram informados sobre as opiniões de especialistas.

Do discurso sobre perícia emergiram duas caracterizações sequenciais do espírito do tempo: uma era “pós-democrática” que gerou uma era da “pós-verdade”.

O rótulo “pós-democrático” descreveu a tendência de decisões políticas importantes serem tomadas com base em opiniões especializadas, em vez de levar em conta qualquer processo democrático. Ele refere-se a arranjos institucionais que põem explicitamente o poder executivo nas mãos de especialistas, como bancos centrais independentes e o Pacto Fiscal Europeu.

O déficit democrático também é composto pela extensão na qual instituições formuladoras de políticas foram capturadas por interesses pessoais. Sob esse enfoque, alguns fatos políticos de 2016 podem ser vistos como tentativas de reassegurar a democracia.

Todavia, desse esforço também surgiu o que é caracterizado como uma era da “pós-verdade”, implicando que a verdade é tida popularmente como irrelevante para moldar o resultado do processo democrático. Afirmações que “soam bem”, mas não se baseiam em fatos, são aceitas como válidas sob a ótica de que desafiam a elite e seus interesses pessoais.

Naturalmente, isso levanta a questão do que é a verdade, com um potencial conflito entre o entendimento de especialistas e o entendimento do eleitor individual baseado na experiência. Assim, por exemplo, economistas podem afirmar que uma economia é forte, ao passo que a experiência individual é de vulnerabilidade e penúria econômica. Se a expertise econômica deve contribuir para o debate de planos de ação, então é preciso considerar o escopo de compreensões diferentes. Longe, porém, de implicar que qualquer afirmação é legítima, esse escopo sublinha a importância de justificação da compreensão, pela razão e a experiência.

Um refrão constante de quem rejeita previsões econômicas de opositores nos debates sobre o Brexit na Grã-Bretanha era de que tais previsões são “constantemente erradas”. Para um economista, isso não é por si só um argumento contrário efetivo: as previsões econométricas sempre são expressas em termos de um intervalo confiável em torno de uma previsão central, de forma que só se pode esperar que essas previsões estejam medianamente corretas.

Mais preocupante é transtornar causas que não são aleatórias, e sim desenvolvimentos significativos que escaparam do modelo de previsão. Com isso, os resultados serão constantemente diferentes da previsão central em uma ou outra direção, como quando as previsões do governo de melhorar as finanças públicas não se materializaram, resultando em mais austeridade fiscal. Com tamanhas consequências tangíveis de previsões erradas, o público perde a paciência. Mas o fracasso de modelos em voga para prever a crise havia instruído o público sobre fraquezas fundamentais nas previsões econômicas, gerando desconfiança nos especialistas econômicos.

 

A crença de que os economistas “sabem melhor” deriva de um entendimento da economia como uma disciplina científica especializada. A especialização em si não é algo ruim. De fato, Adam Smith discorreu pela primeira vez sobre a divisão do trabalho em termos do desenvolvimento das ideias. Mas também argumentou que, enquanto a matemática e as ciências físicas podiam seguir por muito tempo sem intervenção pública, pois sua matéria era distante da experiência pessoal, isso não se aplicava às ciências sociais.

Smith previu que o discurso público iria assegurar que as ciências sociais permanecessem fincadas na experiência. Mesmo assim, ao pretender ser científica da mesma maneira que as ciências físicas e ao privilegiar o método matemático, a economia conseguiu promover a um grau considerável o que Earle et al(2016: 9) chamam de “econocracia”, “uma sociedade na qual metas políticas são definidas em termos de seu efeito sobre a economia, a qual é vista como um sistema distinto com uma lógica própria e que requer especialistas para geri-lo”. Agora, porém, essa perícia tem sido publicamente contestada.

A réplica de que as previsões econômicas frequentemente estão erradas em resposta a economistas que afirmam saber melhor torna-se compreensível quando consideramos o quanto a economia tem sido (mal) representada ao público como um assunto técnico separado da política e dos julgamentos morais.

Mas, se os economistas forem honestos sobre as limitações de qualquer análise, sobre julgamentos morais incrustados e reconhecerem o escopo para uma gama de entendimentos baseados em experiências diversas, então deveriam mostrar que sabem melhor apenas (porém, de maneira importante) no sentido de que têm perícia. Um entendimento da economia como um assunto técnico separável tornou-se incrustado em vários arranjos institucionais que deram aos economistas um poder significativo nas decisões políticas. Um reconhecimento oposto, de que a economia é mais complexa, sujeita a incertezas e inter-relacionada com outras disciplinas, precisa refletir-se em arranjos institucionais para as decisões políticas não serem tomadas “puramente” em termos econômicos.

Tudo isso é mais desafiador do que a modelagem matemática formal (por mais que ela possa ser tecnicamente desafiadora). Mas, ao cumprir suas responsabilidades sociais, a expertise econômica conquistaria novamente mais respeito público.

A implicação do que foi discutido aqui é que uma forma diferente de perícia é mais necessária do que apenas habilidades técnicas, e isso tem fortes implicações para a formação dos economistas. Além disso, é preciso haver maior engajamento público.

Mencionamos a teoria do conhecimento de Keynes e seu entendimento da economia como uma ciência moral. Finalizamos com sua homenagem a Alfred Marshall, que fez uma lista dos atributos de um “economista-mestre”. Poucos podem chegar a tal posição, mas aqui Keynes define o que deveria ser nossa aspiração: “O economista-mestre deve possuir uma rara combinação de dons. Ele deve ser matemático, historiador, estadista, filósofo – até certo ponto. Ele deve entender símbolos e falar em palavras. Deve contemplar o particular em termos do geral e tocar o abstrato e o concreto no mesmo patamar do pensamento. Ele deve estudar o presente à luz do passado para os propósitos do futuro. Nenhuma parte da natureza humana ou de suas instituições deve estar inteiramente fora de seu olhar. Ele deve ser resoluto e imparcial em um estado de espírito simultâneo; tão remoto e incorruptível quanto um artista, mas às vezes tão perto da Terra quanto um político”.

CartaCapital []:17/02/2017.

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Sheila Dow .Professora emérita da University of Stirling. 

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