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A universalidade da música de Bach transcende a própria humanidade. Para Haendel o homem é o caloroso interlocutor, para Bach ele é uma atentíssima testemunha. São esses, por certo, os mais completos mestres no uso da voz humana coletivizada, embora sejam ambos devedores dos grandes mestres que os precederam, Monteverdi, Palestrina, Victoria, Gabrieli, Schütz, Lassus, Josquin, Ockeghem e tantos outros.

Mas podemos supor que todos podem ser representados por aquele que é, de certa forma, a súmula de sua época, Monteverdi, de quem escolhemos As Vésperas, de 1610, da Virgem Maria. É claro que qualquer coletânea extraída da Selva Morale e Spirituale de 1640 pode substituir esse primeiro conjunto. Todavia, como estamos nos referindo nessa listagern à música coral, o Vespro della Beata Vergine melhor se encaixa, pela incidência de movimentos corais frente àqueles a voz solo ou grupo de vozes. Além do mais, esse foi o período polifônico por excelência da criação de Monteverdi.

De Haendel, obviamente, O Messias, essa incomensurável obra-prima. E como uma espécie de representante de seus trinta ou tantos oratórios, o Israel no Egito, tão pleno de exuberantes corais. E como representantes desse gênero inglês por excelência, o hino, escolho o Te Deum e Jubilate de Utrecht.

De Bach selecionamos sem qualquer hesitação a Missa em Si Menor e a Paixão Segundo São Mateus, opções que serão aceitas, por certo, por unanimidade. E duvido que qualquer crítico musical possa dispensar esses dois monumentos maiores da inteligência e. da sensibilidade humana. Mas o maior patrimônio da música coral, as quase duzentas cantatas sacras de Bach que sobrevivem, são mal representadas por essas duas obras, porque,. com poucas exceções, agregam composições para ocasiões menos solenes ou introspectivas que aquela relacionada com oratórios e missas solenes. Acredito que o Oratório de Natal, constituído de seis cantatas autênticas, brandamente relacionadas entre si por motivos religiosos e musicais, constitui um representante adequado para o imenso conjunto de cantatas sacras de Bach.

Haydn sempre teve uma vocação para a síntese. Seu esplêndido oratório A Criação até certo ponto concilia a exuberância anímica de Haendel com a exaltação transcendental de Bach.

Somente o gênio de Mozart faria com que uma obra severamente fragmentada como é o seu Requiem fosse aqui incorporada com tanta naturalidade. O décimo lugar nessa lista cronologicamente ordenada cabe à Missa Solene de Beethoven.

E claro que a nossa consciência se acomoda mal a essas escolhas arbitrárias. E por que não o Requiem de Brahms (apesar dos protestos que ouviríamos da tumba de Bernard Shaw, que abominava essa obra)? Ou o Moses und Aron de Schoenberg? E muitos vão estranhar a ausência do Alexander Newsky de Prokofiev ou da demagógica, mas eloquente, A Canção das Florestas de Shostakovitch. Pois gosto é gosto, mas gosto se discute.

A principal razão para a exclusão desses autores de obras corais específicas e outras que não mencionei é o fato de que já não as ouço com tanta frequência. Mas também são obras cuja qualidade formal não é tão elevada quanto às daquelas escolhidas e que não ocupam posições centrais ou paradigmáticas, seja na História da Música, seja no corpo interno da obra de cada compositor.

Nota – Do livro do autor Um Roteiro para Música Clássica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1992. 705p.

Johannes Brahms: Requiem

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University of California Television (UCTV)

https://www.youtube.com/watch?v=MAnUk6MxXQ0


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